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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sincronicidade daquelas inexplicáveis: acabo de ler "Nordeste", de Gilberto Freyre, colocado magicamente em minhas mãos por  Dorinha Melo para inspirar a edição do filme que está na máquina. Pego ao acaso um Mais! de 2000 e caio em um texto sobre um outro Pernambucano arretado, o crítico de arte Mário Pedrosa e também um texto do amigo de Gilberto Freyre, o escritor médico Silva Melo que já, naquela época, falava dos efeitos desastrosos do açúcar refinado, do arroz branco e da Coca Cola na saúde. Para descansar um tiquinho, resolvo ligar meu VHS que já estava com um filme ao acaso dentro. Dou de cara com "Pérfida", aquele filme de William Wyler de 1940 em que Bette Devis é uma megera terrível do sul norte americano do algodão do século retrasado... mas poderia ser um Engenho da Zona da Mata Nordestina dos primeiros séculos da colonização do nosso país ou até uma Usina dos tempos atuais. Quer mais sincronicidade? Eu, que nunca ligo o rádio, caio sem querer numa fala do Presidente do Senado.

Sou eu... filmando na Zona da Mata Nordestina em foto de Fábio Pereira

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quem Molha... Olha.

Mamãe Helena Jardineira por Janaína, 2011


Quando chega a seca, nova tarefa se impõe: a de, diariamente, molhar as plantas do meu jardim agroflorestal. Um dia sem molhar no auge da seca pode ser fatal, principalmente para as hortaliças que tão generosamente nos alimentam.

Para otimizar meu tempo e o uso da água, uma estratégia que implementei no meu jardim foi a de dividi-lo em 3 zonas. A primeira zona é a que não molho nunca. Como não há vida sem água, as plantas que aí moram são, além de resistentes à seca, capazes de desenvolver raízes muito longas que buscam água nas profundezas da terra. Outras são capazes de aproveitar ao máximo a umidade do orvalho pré-matinal até a época de chuvas abundantes retornar. Nessa zona, as nativas ficam bem, já que são totalmente adaptadas ao regime hídrico da região. Nesta zona ficam as áreas mais afastadas da casa, onde há principalmente árvores e bananeiras (que nem ligam para a seca) e plantas tão adaptadas aos ciclos de chuva-seca que parecem morrer na seca para renascerem vigorosas nas chuvas como, por exemplo, a taioba, a cúrcuma e as helicônias. Aí também estão as suculentas como a Folha da Fortuna, que não pode faltar em nenhum jardim, não somente por conta da sua lindíssima florada, mas também por suas muitas outras qualidades.

folha da fortuna em flor
A Folha da Fortuna, cujo nome Yorùbá é Àbámodá (que significa “O que você deseja, você faz”) representa a multiplicação e a prosperidade. É capaz de afastar coisas nefastas e trazer muitas realizações. Os herbalistas a usam para a cura de doenças de pele, como feridas, furúnculos, úlceras e dermatoses em geral. Também é diurética, combate encefalias, nevralgias, dores de dente, diabetes, coqueluche e afecções das vias respiratórias.*

Meu cuidado com essa zona que nunca irrigo é o de cobrir o solo com folhas e galhos, o que protege as raízes do ressecamento e mantém um ambiente apropriado para que sementes, tubérculos e rizomas durmam sossegados na terra até que as chuvas novamente molhem o solo, despertando-os para o verão.

A segunda zona é a que eu molho semanalmente. Vivem aí somente as plantas que suportam este ritmo de irrigação. Como o jardineiro de Cecília Meireles, jogo água sabendo que não conseguirei molhar o solo de verdade. Mais do que matar a sede das plantas, molhar tem, nesta zona, a função de me colocar em contato, de me fazer presente, de me fazer olhar para cada uma das plantas ali viventes e dizer-lhes do meu amor. Aí estão também plantas que não suportariam ficar sem água durante muitos meses, mas que ‘seguram a onda’ da seca com uma leve molhada semanal. Não insisto em manter nessa zona as plantas que sofrem sem a água diária. No início da época das chuvas, planto muitas sementes, estacas e mudas novas para descobrir quem são as que melhor se adaptam à irrigação semanal. Tento e experimento abundantemente, sabendo que somente algumas ficarão no lugar. Não insisto com as que não aguentam, artificializando demais as condições ambientais. Deixo para lá e tento outras. Algumas das que tenho nessa zona, além das árvores ornamentais e frutíferas (que não dependem da minha irrigação depois de estabelecidas) são agave-dragão, mirra, íris, babosa, framboesa, entre outras. Aliás, muitas plantas adoram esse regime de irrigação. Suas raízes nem gostam de solo encharcado e podem apodrecer se molharmos demais.

Finalmente, a terceira zona é a que molho quase todos os dias. Aí ficam as flores da entrada da casa, as hortaliças, o canteiro de temperos e medicinais, além de algumas mudinhas amazônicas que plantei recentemente e que gostam de muita água como o açaí, a pupunha e o cupuaçu. A maior parte dos temperos e medicinais tradicionais tem origem mediterrânea (hortelã, manjericão, salsinha, etc.) e adoram o ar seco e o friozinho da nossa estação seca. Molhando o solo diariamente, é nessa época que ficam mais lindas, saudáveis e produtivas, assim como as hortaliças tradicionais (alface, mostarda, rabanete, beterraba, cenoura...).

Alguns cuidados: os melhores horários para molhar o jardim são o comecinho da manhã, com o raiar do dia, e o finalzinho da tarde. Quando a seca coincide com a época mais fria do ano, é bom evitar molhar as folhas se a irrigação é feita no final do dia. Há muitos fungos que adoram o frio junto com a umidade e molhar sempre as folhas no início da noite pode favorecer os mofos, ferrugens, manchas, oídios e míldios que deixam nossas plantas tristes, feias e doentes. Molhar no meio do dia é melhor do que nada, mas o mesmo cuidado é necessário. Ao molhar as folhas no meio de um dia quente e seco, a temperatura na superfície foliar cai, o que engana a planta. Ela pensa que está nublado, abre seus estômatos para respirar e... desidrata... porque na verdade está sol e seco. Pode até morrer! Portanto, molhamos abundantemente as folhas somente quando a irrigação é feita no começo do dia, senão, melhor mesmo é molhar o solo, ao pé das plantas. Ainda, quando molhamos no meio do dia, a água rapidamente evapora e pouco fica para matar a sede das plantas. Quando irrigamos ao final do dia, a umidade permanece por perto por muito mais tempo no ambiente, hidratando profundamente todo o sistema.

Certa vez, alguém me falou de um ditado antigo que diz que “quem molha, olha”. Achei perfeito. Molho para olhar. Molho e olho. É nesse momento que vejo quem precisa de um cuidado extra, quem precisa de poda, de manejo, quem precisa sair do sistema, ter suas sementes ou frutos colhidos ou ser multiplicada para virar mudas espalhadas pelo jardim. Molhar as plantas é um momento de muito prazer e conexão com minhas companheiras de moradia. Por isso, acho que é bacana, mesmo quando optamos por irrigar mecanicamente (com sistemas adequados ao seu jardim), mantermos alguns pedaços do jardim sob irrigação manual. O conforto do sistema automático pode nos afastar do jardim e... quando percebemos... há meses que não vamos lá olhar as nossas plantas. A responsabilidade em molhar o jardim diariamente nos “obriga” a estar presente e a nossa presença é o que faz o jardim feliz. Assim como acontece com a nossa relação com as pessoas que amamos, algumas “obrigações” são muito bem vindas e nos aproximam. Foi minha “obrigação” de levar minha filha diariamente para a escola na sua transição entre a infância e a adolescência que criou o espaço perfeito para que eu pudesse ouvir suas angústias, reflexões, partilhas ao longo do trajeto que fazíamos de carro. É a “obrigação” diária de acordar cedíssimo e cobrir minha caçula de beijos de bom dia que gera nosso espaço secreto de amor e confiança durante o qual ela me conta o que sonhou durante a noite. Assim como é na “obrigação” de colocá-la para dormir lendo histórias que posso compartilhar minhas visões de mundo e meu amor pela leitura.

Por isso, é com gratidão que, diariamente, molho as minhas plantas, na mangueira mesmo, em meditação, cantando mantras e conversando com elas. Ao segurar na mangueira e sentir a água passando, lembro-me que a água é o meio universal que conecta todos os Seres. Imanto nessa água, capaz de carregar sentimentos e emoções, o meu profundo amor. O Jardim? Responde com beleza e alimento!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Transformação que Queremos está nas Ruas?

O que estamos fazendo com o nosso planeta, com os nossos corpos e com as nossas relações me estarrece. Minha militância e serviço tentando compreender e agir diante desse cenário é permanente. Os que me conhecem sabem disso. 
Ainda não consegui elaborar muito bem o que penso e sinto diante disso tudo que está acontecendo. Alguns dizem que vivemos um momento histórico. Outros estão começando a ficar apavorados com a ideia da volta violenta da direita.
Sim... queremos mudança. Vivemos tempos de intolerância, dor e injustiça que estão chegando a limites insuportáveis. Está claro que o caminho que tomamos está errado e que algo deve ser feito.
De um lado, desejo firmemente a paz e a não violência. Acredito no caminho do diálogo e da compreensão mútua. Acredito no caminho do acolhimento e do amor incondicional.
De outro lado fico pensando... será que alguém acredita que uma mudança pela via política pode acontecer sem perda nenhuma? Pensar em uma revolução sem uma gota de sangue, sem nenhum vidro quebrado é algo realista? Alguém realmente acredita que os que se beneficiam da realidade que vivemos abrirão mão gentil e pacificamente de suas regalias? Alguém realmente acredita que os viciados em dinheiro e poder vão largar o osso sem reação? Alguém realmente acredita que, do jeito que a humanidade anda doente, não haverá loucos no meio da multidão?
Acho muito curiosas a indignação com o vandalismo e a perplexidade diante das contradições. Não defendo a violência, muito menos o vandalismo. Jamais. Mas também não acho que podemos ser ingênuos a ponto de achar que sairemos sem nenhum arranhão desse embate com os dententores do poder.
Como fazer, então, a mudança tão urgente e necessária? Que tal começar dentro da gente hem? Que tal começar parando de fazer as barbaridades que fazemos no nosso dia-a-dia com nossas crianças (que, pasmem) ainda apanham muito? Que tal tratarmos nossas crianças com respeito e amor, mostrando-lhes o valor da amizade e da solidariedade, ensinando-lhes que a vida vale mais do que o dinheiro e que a felicidade reside em amarmos e sermos amados e não em ter coisas e mais coisas, status e poder? Que tal ensinarmo-lhes a cooperação e vivermos em coerência com o que queremos lhes ensinar? Se ensinamos nossos filhos a serem competitivos, a acreditarem que uns valem mais que outros, que elas devem vencer em detrimento do fracasso dos outros, que suas necessidades são mais legítimas do que as dos outros, que mundo se espera que construam?
Não interessa qual regime político vivemos, qual o partido (ou não partido) que está no poder, que estruturas inventamos para organizar a sociedade. Todos fracassarão enquanto o ser humano viver na perspectiva da fragmentação do Ser que se apoderou de nós desde que nos desconectamos dos ciclos da vida.
Somente depois de catarmos nossos caquinhos, juntarmos nossos fragmentos, reconectarmo os batimentos do nosso coração com os batimentos do coração da Mãe Terra, nossa casa, nosso lar, nossa fonte de vida, é que conseguiremos sair pelas ruas numa grande marcha pacífica, unindo nossos corações em comunhão de interesses.
Enquanto isso... temo (com o coração apertado) que teremos algumas baixas...
Vamos acelerar o processo então e fazer nossa lição de casa?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Oficina "Ervas do Feminino"

As Ervas mágicas, medicinais e sagradas nos acompanham há milênios. Todos temos ancestrais que sabiam usá-las a favor do nosso bem estar e saúde. Há pouquíssimo tempo dependemos de remédios sintetizados para isso. Aliás, boa parte dos remédios que encontramos nas farmácias são feitos com princípios ativos que evoluíram na relação entre as plantas e animais. 

No dia 30 de junho, eu e Andréa Boni, minha amiga, mestre e irmã, realizaremos uma oficina cujo objetivo será o de nos conectarmos cada vez mais e profundamente com a sabedoria e o poder das plantas. Entraremos nesse mundo mágico que pode nos contar tantas histórias, que pode nos acalmar, perfumar, curar e trazer beleza às nossas vidas. Visitaremos nossa ancestralidade em busca do conhecimento sagrado e antigo que ainda pulsa em nosso DNA.

Faça sua inscrição e venha passar um dia inesquecível conosco!


terça-feira, 28 de maio de 2013

Jardinagem Agroflorestal no CEMEIT - Taguatinga-DF

28 de maio, segunda oficina de jardinagem agroflorestal com jovens da EIT, Centro de Ensino Médio de Taguatinga-DF. Foi um convite do projeto Mapa Gentil (http://mapagentil.com.br), realizado pelos meu amigos e parceiros do Faísca Associação Cultural e pela Flávia, professora daquelas que nasceram para isso, vocacionada, entregue, inteira. Integrando-me, por meio da jardinagem, ao projeto e à EIT, começo devagarinho, ainda em processo de aproximação, sedução, conquista. Compartilho algumas imagens dessa nossa pequenina e riquíssima oficina (todas as fotos, com exceção das 2 últimas, foram feitas pela Ana Carolina Lima, aluna da EIT e participante da oficina):

Uma breve rodada de apresentação para sabermos os nomes uns dos outros. Que barato fazer uma atividade envolvendo alunos e professores para aprendermos juntos!
Eu levei uma terra rica em matéria orgânica do meu quintal. Assim, pudemos observar a diferença com relação à terra do canteiro onde resolvemos fazer nossa intervenção. Foi um bom pretexto para conversarmos sobre a importância da vida no solo.
Primeiro passo: tirar toda a sujeira do canteiro.
Lixos diversos foram encontrados. 
Segundo passo: podar galhos e folhas velhos e secos. Aqui mostro como fazer.

E aqui o Rafael pratica, podando um galho seco da azaléia...
... e folhas velhas da agave dragão.
Depois de fazermos uma capina seletiva, Flávia e Ana Clara espalham o adubo orgânico sobre a terra do canteiro. 
Isabela mistura o adubo na terra e planta flores para o canteiro ficar alegre e colorido. 
Quase terminamos... penúltimo e dos mais importantes passos: cobrir o solo com matéria orgânica. Mas... não havia fonte de matéria orgânica na escola. E agora? Isso será tema da nossa próxima oficina, porque cobrir bem o solo é condição essencial para fazermos uma jardinagem realmente ecológica.
Flávia semeia salsinha, uma das poucas hortaliças que suporta meia-sombra. Afinal, também é essencial inserirmos plantas comestíveis nos nossos jardins!
Antes e durante a prática, conversamos sobre a função de cada ferramenta utilizada na jardinagem agroflorestal, sobre o conceito de Permacultura e de Cultura, sobre a poda das plantas como estratégia de dinamização dos sistemas, sobre a função da meso e microfauna do solo e também sobre os desafios culturais para o cultivo de jardins agroflorestais na cidade, já que esses exigem um solo densamente coberto e cheio de vida. As perguntas foram muitas... o que demonstrou o interesse dos participantes!

Agradeço o preciosa participação de cada um dos que estiveram presentes e ao Ministério da Cultura que, por meio do Prêmio Tuxaua, apóia minha participação nesse projeto tão desafiador quanto inspirador.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Quintais e Crianças: Vida e Movimento*

Tudo o que é vivo está em constante movimento.
Até o que parece, a primeira vista, estático, como por exemplo uma planta ou uma rocha, assim parece somente porque a escala de tempo dos humanos é diferente da escala de tempo desses Seres. As rochas se movem, racham, deslocam-se, acumulam matéria e crescem, são intemperizadas e transformam-se em solo. Muitos afirmam que rochas são seres vivos.
Há um filme na internet feito a partir de imagens da série VIDA da BBC, narrada por David Attenborough (http://vimeo.com/26332964). Filmado ao longo de dias, meses, ou quem sabe anos, os realizadores mostram o delicado e sutil movimento das plantas. Em seu crescimento, exploram espaços, sobem e descem, abrem-se em flores coloridas. Mas olhos atentos podem ver o movimento das plantas mesmo sem que seja necessário acelerar as imagens como nesse filme maravilhoso.
E as crianças? A definição de criança é movimento. Elas necessitam do movimento para crescerem. Tendo a acreditar que crianças educadas em ambientes e culturas muito sóbrios e rígidos, nos quais não podem se movimentar livremente, tendem a se tornar adultos tristes. Se existe algum estudo a esse respeito, gostaria de conhecê-lo.
Pedagogos, educadores e psicólogos que trabalham com educação infantil são unânimes em dizer que o movimento é essencial para o desenvolvimento intelectual e cognitivo da criança, assim como o é para seu desenvolvimento físico. Para a criança pequena, o movimento é a forma de conhecer o mundo e de se comunicar. Portanto, as crianças não ficam se mexendo o tempo todo só para irritar os adultos (apesar de muitos pensarem e sentirem assim). Elas se mexem porque o movimento é necessário à oxigenação de suas células. Elas se mexem o tempo todo porque tudo lhes interessa. Oxigenadas, suas células são ávidas por conhecer, experimentar, vivenciar, viver. Seu corpo exige a movimentação constante para que os músculos se estendam, para que suas veias e artérias se estiquem, para que suas sinapses se formem. Seu corpo exige o movimento, para ficar forte e sustentar os ossos que crescem e o seu próprio peso, que aumenta a cada dia. Deixar que a criança experimente e vivencie o movimento livre e natural do seu corpo é essencial para que uma criança cresça feliz e equilibrada.
O quintal agroflorestal, ele também está sempre em movimento.
Vejo que muitos têm a expectativa de que chegará o dia em que o quintal estará pronto. Isso não existe. A menos que seja gasta uma quantidade enorme de energia para mantê-lo estático. Além de podas frequentes, seria necessário utilizar adubos químicos e venenos sistematicamente para evitar o movimento do jardim. Criaríamos assim jardins frios e hidrofóbicos, que rejeitam a água e a vida.
Se o que desejamos é a vida em abundância e se o que desejamos é viver em consonância com o fluxo da vida, é necessário deixarmos a sucessão acontecer, as espécies se substituírem, plantas morrerem e outras surgirem.
Um quintal agroflorestal muda o tempo todo. Quando começamos a acumular vida no solo, deixando-o abundantemente coberto com folhas e galhos (serapilheira), as sementes trazidas pelo vento, pelas aves, morcegos e todo pequeno animal que passar por ali germinam. Se for hábito levar para o quintal agroflorestal todo o resto orgânico da cozinha, inclusive caroços e sementes, então tomates, abóboras, manga, mamões e toda fruta que gostamos de comer brotarão magicamente no quintal. Em um quintal agroflorestal vivo e dinâmico, uma horta se transforma em pomar, o pomar volta a ser horta. A touceira de banana se expande, anda, e ocupa novos cantos do quintal deixando para trás solo fértil e mudas de frutíferas em crescimento. Árvores antigas se tornam adubo e ornamentais de sombra se expandem em espaços onde antes havia sol em demasia para elas. Em um quintal em movimento, nosso papel é o de espalhar sementes e estacas por todo o canto e observar a linguagem das plantas que vão nos mostrando os melhores ambientes para cada uma, as interações mais felizes com suas vizinhas. A partir dessa observação, podemos, com nossa intervenção, por meio do manejo, atuar de forma positiva, acelerando o movimento e o acúmulo crescente de vida e abundância.
Por tudo isso, um projeto de quintal agroflorestal é somente uma referência, um guia, uma direção a seguir, um lugar por onde começar, um destino fictício a nos orientar.  Não se deve ter a expectativa de conseguir fazer um desenho exato de como estará o quintal daqui a 10 anos. Isso seria ter a boba expectativa de que podemos determinar exatamente como serão nossas crianças daqui a 10 anos. Tentativa infrutífera que pode ter como consequência a frustração. Estejamos abertos ao novo, ao inesperado, ao movimento. Que venham as sementes trazidas pelas aves que descansam nos galhos das nossas árvores, que germinem aquelas que vão junto com o resíduo orgânico da nossa cozinha. E que todas as crianças do mundo tenham o direito de movimentar-se e tornar-se exatamente aquilo que fará delas pessoas felizes. 

 chuvas de jan de 2011

seca de maio 2013
* Originalmente publicado na edição de abril/2013 do Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (www.teiadethea.org)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Colheita na Abundância*


De repente, ouço um estrondo. Algo caiu lá no chão no quintal. Logo penso que foi um abacate. Vou em busca dele por entre as folhagens plantas, galhos, raízes... e encontro a maior graviola que eu já vi e toda minha vida. Inteirinha. Sem um machucado. Oferecendo-se. Quando a abri, não pude acreditar em meus olhos. Um branco que não é cor de tinta branca. É cor de branco da natureza. Nenhum machucado, nenhum bichinho intruso, nenhum pretinho daqueles que geralmente acompanham as graviolas que colho no meu quintal. Não ligo para eles e os bichinhos que os provocam. Sempre ainda sobra muita graviola para suco, cremes e mousses. Mas confesso que foi impactante ver aquele fruto tão saudável, tão inteiro, tão branco e tão majestoso ali na minha frente.

Outra vez, foi parecido. Daquela vez, eu estava na varanda pensando no que faria para o almoço. De repente, aquele som surdo de coisa caindo em cima da serapilheira que cobre o chão da minha florestinha. Era um abacate. Enorme e maduro. Prontinho para virar guaca mole. Um luxo. O abacate do meu quintal já está famoso de tão bom que ele é. Fruto enorme, caroço pequeno. Muita polpa, verde clara, sem fio, macia, sedosa e saborosa. De vez em quando encontro alguém que não vejo há tempos: “Ei, quando vamos colher abacate no seu quintal de novo?”. O abacateiro é tão grande que é necessário uma operação especial para a colheita. No mínimo 3 pessoas. Uma para subir e cortar com o podão o pendão do fruto. E dois para segurarem o pano lá embaixo que amortecerá a queda do abacate lançado lá de cima pela primeira pessoa. Como é uma trabalheira subir lá no topo, já colhemos tudo o que damos conta. No mínimo 20 de cada vez. Depois dividimos a colheita entre os participantes. Abundância...



A abundância é a regra da natureza. Ela sempre está em busca de produzir excedentes para que todos tenham fartura. Os sistema naturais, quando estão muito doentes e degradados, precisam de um tempo para acumular matéria e energia. Depois desse período de acumulação, começa o período de prosperidade no qual a produção é maior do que a necessária somente para a própria manutenção. Produção de frutos, sementes, folhas, raízes, galhos... Abundância que permite que cada vez mais seres possam ali se fartar. O sistema vai se tornando cada vez mais rico e complexo. Quando a abundância é muito grande, o sistema até pode exportar essa abundância e ajudar na recuperação de outros sistemas ao redor.

Então, primeiro o sistema acumula, depois exporta. Inverter as coisas é um desastre. Tentar extrair matéria e energia de um sistema que ainda está em acumulação é sempre uma operação muito delicada. Deve-ser fazer com muita cautela para evitar que o sistema emperre, se machuque ou até volte para trás. Há que se pensar sempre em como ajudar o sistema a ir para frente, para a abundância, e não o contrário. Mas, quando a gente chega na abundância... ahhhh... é o deleite, a colheita farta, a tranquilidade, a paz... e podemos então (devemos?) dividir, espalhar, doar.

Mas para chegar lá, muito serviço. O bom, é que no quintal, o serviço é bom demais... cortar, picar, podar, plantar, cobrir o solo, semear, cuidar. A natureza só pede que sigamos seu fluxo. Observando, interagindo, entrando em contato empático com a natureza, ela nos mostra o que devemos fazer para ajudá-la. Aguçar os sentidos é a nossa tarefa. Uma tarefa que não acaba nunca pois que sempre mais profundamente é possível entrar nessa relação de intimidade entre seres. Entre todos os seres.

Mas mais do que serviço, também bastante paciência. Paciência para esperar, serenamente e, em serviço, a colheita e a abundância. 

* texto originalmente publicado no Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (teiadethea.org), edição de março de 2013. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Mutirão Agroflorestal, a Alegria de Fazer Parte


O Mutirão Agroflorestal, organização e movimento dos quais faço parte desde os seus inícios respectivamente em 2003 e 1996, surgiu no desejo que um grupo de amigos tinham de fazer parte, de participar, de agir, de aprender fazendo e, principalmente, de fazer tudo isso juntos. Naquela época, eu quase nada sabia sobre Agrofloresta. Passados 17 anos, a Agrofloresta se tornou meu modo de ver o mundo, o viés pelo qual penso, sinto e ajo. Naquele início, fazíamos encontros a cada um ou dois meses, viajando para sítios, chácaras e fazendas de agricultores ou de algum de nós mesmos, para praticar, plantar, manejar, celebrar, dançar, cantar e, principalmente, para estarmos juntos. O tempo passou, o movimento se tornou organização não governamental. Nos espalhamos pelo país, pessoas sumiram, outras chegaram. Projetos, sonhos, consultorias, palestra e eventos depois, é nos mutirões agroflorestais que nos sentimos mais Mutirão Agroflorestal. É no manejo, no plantio, no exercício da convivência em alegria e respeito que nos sentimos parte dessa família. Mesmo quando apenas alguns de nós podem estar presentes, os outros distantes ou atarefados, sentimos a presença de cada um dos que tanto nos ensinaram e inspiraram. E é com as mãos nas plantas, sementes e terra que nos sentimos realmente participando do ciclo da vida.

Essas palavras saem dos meus dedos inspiradas por um fim-de-semana cheio de mutirão agroflorestal. No domingo, dia 24, renova-se a amizade e parceria com Mangala e seu Ateliê Angico para realizarmos juntos um mutirão de manejo. Pessoas queridas e outras desconhecidas juntam-se a nós nessa aventura que é o serviço totalmente desprendido de trabalhar para deixar um pedacinho do Planeta mais bonito e cheio de vida. Gratidão, Mangala!



Foto: Marco Gonçalves

Antes de começar, em círculo, combinamos o que vamos fazer. Muita gente nova, é necessário alinharmos alguns conceitos.


Foto: Marco Gonçalves


Um dos grupos dedicou-se ao manejo de uma touceira de banana! E a galera caprichou: assim é que se faz ao cortar os pseudocaules que já produziram, deixando esse funil para evitar a propagação do moleque da bananeira.


Foto: Marco Gonçalves

Outros, como eu e esses todos que estão na foto, nos dedicamos a cortar tudo o que estava velho, podar o que precisava ser podado para depois cobrir bem o solo, principal tarefa do agroflorestador. Vejam só na foto aí embaixo como Narmada e Luciana dedicam-se concentradamente a essa tarefa tão essencial.


Foto: Marco Gonçalves
Foto: Marco Gonçalves





Surpresa surpreendente e celebrada, a aranha carrega seus ovos fugindo dos nossos facões.



Foto: Marco Gonçalves

Mudas de ipê, café, cajá, tangerina, jatobá, siriguela e sementes diversas vão para o chão, lá onde é o seu lugar. Ah... taí uma das coisas mais gostosas do mundo... plantar...

Foto: Eduardo Rombauer
O que mais me emocionou? 
A fala de um dos participantes, ainda novato em mutirões agroflorestais, quando partilhou seu sentimento de surpresa com a leveza e amorosidade com que nós realizamos nossa tarefa. O grande barato do mutirão agroflorestal é que transformamos não somente o lugar onde realizamos nossa intervenção, mas também aquecemos os nossos corações, unindo-os uns aos outros em sonhos comuns. Que sonhos? Sonhos de paz e abundância para todos os Seres. É assim um mutirão agroflorestal. 

Agradeço ao Marco Gonçalves que registrou tudo e cedeu as fotos para que publicássemos aqui. Valeu Marco! Exceção de autoria é a foto do grupo, feita pelo Eduardo Rombauer para que o Marco pudesse aparecer!

Quer ver mais e outro jeito de contar a história? Visite o blog do Ateliê Angico que a postagem da Mangala tá show: http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2013/03/mutirao-agroflorestal-2.html