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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Seca em Dezembro?*


Estamos em Dezembro. Não chove há quase uma semana! No quintal, as plantas secam.
Penso logo nos agricultores que plantaram somente há duas semanas. Penso nas sementes recém germinadas, nas pequenas plantinhas surgindo. As raízes ainda pequeninas não estão prontas para buscar a água do fundo da terra. O seu corpinho ainda não acumulou água suficiente para agüentar mais que três ou quatro dias sem chuva. Uma semana sem chover pode ser fatal. Se isso acontecer, todo o esforço e as sementes serão perdidos. E se só havia aquelas sementes? E se não houver mais sementes guardadas para plantar? E se aquela variedade adaptada àquele lugar vem sendo plantada incansavelmente ano após ano há muitas gerações? De repente, uma semana sem chuva faz desaparecer para sempre aquela combinação de genes selecionados durante tantas gerações de plantios e colheitas...
As chuvas começaram tarde esse ano. Um mês mais tarde do que no ano passado. Mas quem plantou, disciplinadamente, na primeira semana de chuvas, no meio de novembro, provavelmente não perderá sua colheita. As plantas talvez sofram um pouco com esse veranico fora de hora, mas com quase um mês e meio crescendo no solo, estarão grandes o suficiente para terem acumulado a água que as manterá vivas durante alguns dias de inesperada seca. As raízes já afundaram no solo e conseguem acessar a água que se acumulou sob a superfície com as primeiras chuvas intensas. Se o solo estiver coberto com matéria orgânica, melhor ainda e maiores as chances de sobrevivência. É nessa hora que um solo coberto faz toda a diferença!
É claro que aqueles que podem ter um sistema de irrigação nada sofrem, mesmo que tenham plantado um pouco mais tarde. Mas quem pode? A agricultura familiar que cuida das variedades adaptadas localmente ou as empresas rurais que plantam sementes hibridas e transgênicas? Está claro quem mais sofre com as consequências das mudanças do clima? E qual o custo ambiental dos sistemas de irrigação? Quando sabemos que 70% da água potável vêm sendo utilizados para a irrigação dos cultivos e que, aos poucos, os aqüíferos superficiais e de sub-superfície vêm sendo aceleradamente esgotados e poluídos, podemos concluir que quem pagará esse custo não é quem irriga hoje, mas sim nossos filhos e netos que não terão água para beber se continuarmos explorando os recursos hídricos da forma como estamos fazendo atualmente.
Conhecer os ciclos da natureza é, há milênios, mais do que necessário. É uma questão de sobrevivência. Quem foi disciplinado e conhece os ciclos da natureza, plantou no meio do mês de novembro. E não plantou todas as sementes que tinha. Quem se atrasou, por um motivo ou por outro, e não dispõe de um sistema de irrigação, está a ver suas plantas morrerem com esse veranico fora de hora.
Há o momento certo de plantar para que a colheita seja abundante. O momento de plantar – literalmente – as roças que nos alimentarão em 2013 coincide, no nosso calendário romano, com o final de um ciclo solar, momento de parada para as festas de fim de ano e, para muitos, momento de tirar férias e descansar. Momento também de plantar nossos sonhos e, mais do que isso, colocar a semente de fato na terra, no momento certo, disciplinadamente, sem adiarmos nenhuma semana. Assim, nenhuma seca inesperada nos pegará de surpresa. Nossas plantinhas já estarão em franco crescimento, forte e resistentes e aguentarão alguns dias de veranico.    

* Originalmente publicado na edição de dezembro do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.orgwww)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Plantas e Humanos em Coevolução

Em genética de populações, coevolução é o fenômeno pelo qual diferentes espécies se modificam ao longo das gerações como resultado da interação que acontece entre elas.

Um exemplo clássico é a evolução de muitas das substâncias de defesa produzidas pelas plantas. As plantas que consideramos venenosas são plantas que produzem substâncias tóxicas que as protegem do ataque dos herbívoros. Vejam o caso da comigo-ninguém-pode, que é uma planta ornamental muito linda que produz um látex urticante e venenoso. A sua toxicidade é devida à produção de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulhas, as ráfides. Pode ser que sua ancestral não tivesse ráfides. Nesse caso, era provável que, frequentemente, as plantas fossem devoradas por diversos herbívoros. De repente, uma mutação fez com que uma planta passasse a produzir uma substância muito tóxica para esses herbívoros. Essa planta, não tendo sido devorada pelos herbívoros, por hipótese, uma lagarta, produziu muito mais sementes que as que não produziam a tal substância tóxica. Conseguindo viver mais tempo, deixava muito mais descendentes.  Suas sementes se espalharam de tal forma que a proporção de plantas que produziam a tal substância tóxica foi aumentando cada vez mais ao longo das gerações, até que sobrassem somente plantas produtoras da substância tóxica. Enquanto isso, aconteceu um outro fenômeno: uma mutação surgiu em um dos indivíduos da lagarta. Essa mutação permitia à lagarta que seu sistema digestivo decompusesse a tal substância. A lagarta conseguia se alimentar da comigo-ninguém-pode, mesmo que ela possuísse a substância tóxica. Somente as lagartas que tinham essa mutação conseguiam se alimentar adequadamente. Essas, a cada geração, deixavam muito mais descendentes do que aquelas que não sofriam com o efeito da substância tóxica. Resultado? Após algumas gerações, todas as lagartas existentes eram capazes de digerir a substância tóxica, mesmo que todas as plantas a produzissem. Ou seja, a tal substância não servia mais para proteger a planta da lagarta. Mas ambas haviam mudado. Isso é coevolução: as espécies se modificando ao longo das gerações em função da pressão de seleção resultante da relação com outras espécies. 

Esse fenômeno pode ter acontecido muitas vezes e de diversas formas ao longo da evolução da comigo-ninguém-pode. Em uma dessas vezes, houve uma mutação que fez com que a comigo-ninguém-pode produzisse ráfides. E é assim que as plantas possuem várias substâncias, sendo que algumas servem atualmente para algo e outras, que não causam nenhum efeito deletério na planta, foram ficando... e é por isso que hoje temos tantas plantas medicinais e aromáticas. 


Mas não é só para a defesa que a coevolução! Foi assim também que surgiram os cheiros e as cores espetaculares das flores que atraem insetos e pássaros que, por sua vez, possuem bicos e trombas do tamanho perfeito para chegar ao néctar. Foi assim, por meio da coevolução que se desenvolveram, por exemplo, as formas incríveis das orquídeas, parecidíssimas com os insetos que as polinizam. Quanto mais parecida com o inseto, maior a chance de polinização e maior a quantidade de descendentes. Geração após geração, a quantidade de flores mais parecidas com o polinizador era maior. 

Foi por meio da coevolução que boa parte da biodiversidade existente hoje no nosso planeta surgiu. 

A domesticação, por outro lado, é o processo pelo qual as plantas e os animais que nós, humanos, usamos para suprir as nossas necessidades são modificadas por nós, ao longo das gerações, conscientemente, de forma que as modificações atendam aos nossos interesses. É assim que hoje há milhos com grãos e espigas grandes e nutritivos bem diferentes dos grãos da planta que lhe deu origem, o teosinte. Agricultores e agricultoras, ao longo das gerações, escolheram os grãos maiores e mais produtivos, e o milho foi sendo transformado para atender aos nossos interesses.

Venho pensando sobre algumas plantas que nós, humanos, usamos há muitas gerações na forma de chás, medicinas, magias. As plantas medicinais, aromáticas e mágicas. Há milênios, plantas como a sálvia, o manjericão ou a mirra vêm sendo plantadas e utilizadas pelos seres humanos. E há milênios nós as podamos e colhemos. Acho que é por isso que muitas plantas exigem que as podemos para continuarem vivas. O manjericão é assim. Se não for podado quando está em flor, acaba morrendo logo depois de florescer. Se o podamos na época certa, pode continuar vivendo por anos. É assim também com a pimenta. Ela fica muito mais saudável se estamos sempre colhendo seus frutos. Se os deixamos secar na planta, ela acaba definhando e morrendo. Umas espécie de dependência é criada ao longo do processo de domesticação! Vejam o que acontece com os animais domésticos. São quase que totalmente dependentes de nós. Até afetivamente, como acontece com os cães. 

Na domesticação, a relação é unidirecional. Humanos selecionando e modificando animais e plantas. Na coevolução, ambas as espécies envolvidas se modificam como resultado da relação entre elas. 

Assim, temos, há milhares de anos, provocado mudanças nas plantas como resultado da seleção das sementes para plantio e como resultado do manejo ao qual as submetemos. E nós, humanos? Essas relações que temos com as plantas e os animais... como têm nos modificado? O que estamos dispostos a deixar plantas e bichos modificarem em nós? Ainda que mais para a poesia do que para a ciência, penso que vale pensarmos em como nossa relação com as plantas e com os animais pode nos levar a (co)evoluirmos para o benefício de ambos. 

Revirando teoria e ciência pelo avesso, sonho com a possibilidade de que a co-evolução deixe de parecer somente uma corrida para ver quem é que vai se dar melhor mas, ao contrário, que seja o impulso que nos conduza mais rápido às mudanças necessárias para que alcancemos logo o mundo de paz e abundância que todos desejamos... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sustentabilidade e Sistemas Agroflorestais na Construção de Sociedades Sustentáveis - VII CBSAF


Postei no youtube o segundo episódio da série de filmes que fiz a partir de imagens gravadas durante o VII CBSAF (Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais), realizado pela Embrapa, em parceria com o Mutirão Agroflorestal, A EMATER-DF e a Sociedade Brasileira de Sistemas Agroflorestais. Foi um evento realmente incrível, tanto pela temática (o Diálogo de Saberes) quanto pelo formato. Pesquisadores, técnicos, agricultores e estudantes foram convidados a participar ativamente. Foram estimulados a compartilhar seus saberes, pensamentos e conhecimentos de uma forma como eu nunca tinha visto em nenhum evento científico. Conhecimento científico e conhecimento vivencial em pé de igualdade. Ernst Götsch, meu Mestre e amigo, respondeu, quando lhe perguntamos o que ele havia visto de novo nesse evento, que era o fato de que todos, possuindo ou não bens materiais acumulados, tiveram a mesma oportunidade de falarem e de serem ouvidos. Pois é assim que acredito na educação emancipadora e geradora de autonomia. Uma educação que não considere o aprendiz (criança, adulto ou idoso) um saco vazio a ser preenchido com um conhecimento superior. Todos temos o que dizer, todos temos experiências para compartilhar e para gerar reflexões e aprendizados. Todos temos algo a dizer sobre qualquer coisa. Quando começarmos a ouvir e considerar todos os pontos de vista, todas as experiências acumuladas por tanta diversidade de pensamentos e vivências, começaremos a avançar na construção de sociedades realmente sustentáveis. Que seja assim!

Mato Amigo*


No meio agronômico, chama-se mato tudo aquilo que você não quer ver crescer na sua lavoura. Essas plantas indesejadas também são chamadas de ervas daninhas, ervas más ou plantas invasoras. Imagino que devam existir dezenas de nomes regionais para essas plantas não queridas pelas pessoas.
Na ideia antropocêntrica de se fazer agricultura, o primeiro passo é limpar a terra. Tirar da frente tudo o que for verde ou se mexer. Depois de limpa, planta-se nessa terra as sementes daquilo que se deseja colher. Geralmente, só uma coisa. Chama-se a isso de monocultivo. Cultivo de uma única espécie.
Enquanto o que desejamos colher cresce, todo o resto é considerado mato, erva daninha ou planta invasora quando entra na nossa área. Qualquer planta que se atrever a germinar naquele solo será arrancada, cortada ou envenenada. Não há a menor chance de sobrevivência para qualquer outra espécie que não seja a espécie desejada pelo ser humano que possui aquele pedaço de chão.
Depois que a planta desejada crescer e produzir aquilo que o homem quer, se for uma planta anual como o milho, a soja ou o feijão, morrerá e a terra ficará limpa novamente para que o esse ciclo recomece.
As plantas daninhas são, em regra, odiadas ou às vezes, só temidas. Há livros e livros dizendo como podemos nos livrar delas. Técnicas diversas, listas enormes de venenos.
Antigamente, pois, eu também olhava para elas com incômodo. Não sabia o que pensar e ficava chateada quando cresciam no meu jardim. Ai, que trabalheira... preciso arrancar tudo aquilo... quanto tempo vai me tomar...
Hoje, tudo se transformou. Sou grata a cada uma delas individualmente e a todas coletivamente. Elas dão colorido ao meu quintal e estão sempre dispostas a me ajudar a cobrir o solo quando faço o manejo. Sinto sua falta quando preciso de matéria orgânica e não há nada disponível e tenho que trazer de fora. Sinto que há algo errado. De vez em quando, aparece uma visita casual que me conta que o chá daquela é bom para o estômago e que a flor daquela outra é comestível. Vou descobrindo pouco a pouco que todas elas tem uma função, um dom, uma habilidade, uma forma de contribuir para que meu quintal seja mais bonito e produtivo.
Percebi também que gostam de ser manejadas. Algumas crescem rápido depois de podadas, fornecendo rotineiramente a matéria orgânica que preciso para o dia-a-dia. Outras dão florezinhas lindas e delicadas e morrem. Se cortamo-nas logo depois de florescerem, curtimos as flores e ainda aproveitamos o restinho de massa para cobrir o solo. Coloco algumas das mais temidas em vasos e jardineiras onde, reinando, enfeitam e embelezam minha casa. Descubro novas formas de usá-las ao observar como se comportam, como crescem, como reagem à poda.
Hoje, quando manejo o quintal, sinto imensa gratidão por existirem. Convido-as a virem, a se apresentarem, a me revelarem seus segredos. Nenhuma é indesejada. Como jardineira, agradeço sua existência e utilizo-as.
As plantas que dão a maior parte do alimento hoje (trigo, milho, arroz, por exemplo), foram um dia plantas daninhas. A cevada era mato no meio do trigo. Tomou conta e para fazer uma limonada, os agricultores começaram a domesticá-la. Foi graças a milhares de gerações de agricultores e agricultoras que trigo, milho e arroz chegaram até nós. Foi com seu incansável trabalho de plantar, cuidar, colher, selecionar, plantar de novo, todos os anos, ano após ano, armazenando, trocando, distribuindo... que criaram centenas de variedades locais adaptadas a cada uma das específicas necessidades. De todas as cores, de todos os formatos e composições, o milho e o feijão são exemplos escandalosos. Ambos são latinoamericanos e foram domesticados, selecionados e adaptados por nossos ancestrais que viveram nessa terra antes de nós e aos quais devemos boa parte do nosso alimento. Além deles, a abóbora, o inhame, o cará, a mandioca. A pimenta e o amendoim.
E por onde anda toda essa diversidade? Desaparecendo sob o mesmo massacre que extermina ainda hoje nossos irmãos indígenas. Sob o massacre da uniformidade e do controle. Sob o massacre do lucro e da ganância. Sob o massacre que é para as culturas todas o controle privado da semente, que é a única possibilidade de futuro.
E nós? Que sementes vamos deixar para as próximas gerações?

*texto originalmente publicado no Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea, em sua edição de outubro.

Oficina de Manejo com o Ateliê Angico

O Mutirão Agroflorestal se fortalece quando nos juntamos para plantar, manejar, cuidar das plantas e do lugar onde vivemos. Oficinas e mutirões são momentos e espaços de muito aprendizado e troca. São oportunidades de crescermos como seres humanos comprometidos com a mudança que queremos ver no mundo.
Foi assim que aconteceu na Chácara Murici, durante a oficina "Quintal Agroflorestal: Manejo na Seca" no dia 16 de setembro. Logo em seguida, Mangala, nossa anfitriã, nos regalou com uma linda postagem no blog do Ateliê Angico. Registro aqui para rever, relembrar e, novamente, me alimentar do sentimento de pertencimento que a oficina provocou em mim. O sentimento de estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas, fazendo a coisa certa. Ai... que bom!!!

O link para a postagem da Mangala e as fotos que registraram aquele dia tão especial:

http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2012/09/quintal-agroflorestal.html

PS. A oficina só foi possível de ser realizada graças ao apoio do Ministério da Cultura via Prêmio Tuxaua. Deixo aqui os meus agradecimentos!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Chegou Novamente a Primavera!



O quintal está em festa. Chuva de verão no Equinócio de Primavera. Chuva de verdade, de gota grande que molha o chão e que lava as folhas revelando no dia seguinte o verde brilhante que estava escondido sob a poeira da seca.

O dia seguinte: Passarinhos diversos e muitos gritam, cantam, berram e chamam sem descanso por seu par. Também chamam a mim e vou lá ver o que acontece... Logo cedo, descobertas incríveis! As helicônias insinuam suas flores vermelhas bebida de beija-flores. O ingá insinua seus frutos. Cores por todos os lados. Flores e plantas crescem a olhos vistos. Levo um susto. A pitangueira ficou mocinha! Pela primeira vez, mostra suas pequenas e delicadas flores brancas. Quem sabe ela percebeu que sua mãe morreu e resolveu assumir a produção de pitangas deste ano! De tarde, mais uma surpresa: as helicônias exibem suas inflorescências vermelhas matinalmente só insinuadas.

Janaína pergunta: “você gosta mais do inverno ou do verão?”. Minha amiga, com quem conversamos, responde: “aqui em Brasília, prefiro o inverno”. Não me lembro como a conversa continuou, mas de repente ouvi Janaína dizendo: “... no verão faz frio e no inverno faz calor”. Alto lá! Que susto. Minha filha de nove anos não saber ainda o que é inverno e o que é verão. “não filha... é ao contrário!”. “Mas mãe, é inverno e está muito calor!”

Pois é, apesar de tudo estar muito bagunçado e no inverno fazer tanto calor, me sinto invadida por confiança e fé com o início dessa Primavera com cara de Primavera, com sintomas de Primavera, com indicadores de Primavera. Quem sabe um novo tempo já anunciado começa a acontecer ao mesmo tempo em que o caos parece se instalar! Torço para que sigamos assim, reconhecendo as estações do ano, das quais toda a natureza é dependente. Dois graus de diferença nas máximas e mínimas podem representar o fim de uma espécie em algum lugar. Muitas plantas necessitam de temperaturas que atingem um mínimo nas noites de inverno para florescerem, outras precisam da combinação entre uma determinada temperatura e um determinado comprimento de dia. A natureza é de uma enorme complexidade delicada, intrincada, de precisão milimétrica que se construiu ao longo de milhões e milhões de anos a partir da relação entre os seres e desses com os ritmos da terra e do céu. Em co-evolução, espécies de plantas, bichos e microorganismos foram, ao longo do tempo, construindo sistemas, mecanismos e estratégias que permitiram com que se estabelecessem, se multiplicassem e deixassem descendentes em um processo que envolveu e envolve milhares de variáveis dificilmente compreendidas por nossos sistemas científicos baseados na fragmentação do conhecimento.

Não sendo possível tudo compreender, resta-nos aceitar e respeitar a inteligência da natureza, seguir seus fluxos, utilizar de todos os nossos sentidos para agirmos no sentido de ajudar, proteger, perpetuar... ter sempre em mente fazer parte desse sistema vivo complexo e vibrante ao invés de querer controlá-lo.

Quem sabe assim nossos netos e bisnetos não se confundam mais sobre se faz calor no inverno ou no verão. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Oficina de Manejo do Quintal Agroflorestal


Parece que tempo de seca é somente tempo de esperar pelas chuvas e combater o fogo. Que nada! Descobri com o meu quintal que quando investimos em um manejo caprichado na seca, as águas da chuva são muito melhor aproveitadas por todo o sistema. Quando começa a chover, a diferença na exuberância de um quintal bem manejado durante a seca daquele que não foi manejado é gritante. Nessa oficina, discutiremos os aspectos que devem ser observados no manejo e praticaremos juntos. Sejam bem vindos a esse dia que será, sem dúvida, cheio de inspiração e muito aprendizado. 

Vida Morte Vida, e o Mundo Gira*

Depois de alguns dias fora de casa, fui regar o jardim. Saudades imensas de todos que lá vivem, plantas, bichos, seres visíveis e invisíveis. E como acontece quando encontramos amigos de quem sentimos saudades, eu estava louca para saber das novidades.

O ingá de metro que plantei na frente da janela do meu quarto todo em flor! A primeira florada. Flores esvoaçantes de pistilos brancos exibicionistas. Estrelas brancas dançando com o vento. Pompons de natal cor de neve em pleno inverno tropical. Amo ingá de metro. Havia um deles no quintal da minha infância. Lá no fundo do quintal, que para mim era imenso, sem fim. Eu subia nele para colher aquelas vagens compridas e gordas, já em ponto de explodir para fora o algodão branco do seu interior. Ao abrir as vagens, aquele aroma adocicado da minha infância subia e penetrava meus sentidos. Pura delícia de fruta selvagem, não domesticada, nem melhorada, nem piorada pelos dedos dos homens tecnificados. Apenas pelos dedos daqueles que a amam comer e foram espalhando as sementes das frutas mais gostosas e carnudas por aí. Sementes pretas escorregadias que pedem para ir ao solo imediatamente. Recalcitrantes, não resistem muito tempo e perecem logo depois que sua polpa branca e cheirosa é comida. Prova de que é árvore da mata de galeria, da mata ciliar, da mata que fica na beira dos rios, mata sempre molhada que não se importa se lá fora é tempo de seca ou de água.

Segunda novidade: a pitangueira morreu. Aquela cujo fruto aparece no final do filme que fiz para o TEDx Buenos Aires e no qual mostro meu quintal agroflorestal. A mãe daquele fruto que aparece imenso sobre a mão de Janaína, minha filha caçula. Aquele fruto foi um dos últimos, imenso e produzido fora de época só para enfeitar o filme, junto com outros 3. E a pitangueira morreu. Parte das folhas secaram ainda presas à árvore. Fiquei muito tempo observando e tentando compreender o que havia acontecido. Até que, de repente, me dei conta de que não se tratava de compreender, mas simplesmente de aceitar. E também agradecer pelas tantas colheitas maravilhosas que forraram o chão ao seu redor e nossos pratos de vermelho. Pensei no ho'oponopono: sinto muito, me perdoe, tem amo e sou grata. Tenho feito essa oração acrescentando antes dessas afirmações: eu aceito.

Ali, de pé, aceitando a morte da pitangueira, olho para baixo e o que vejo? Muitos e muitos filhotes da pitangueira. De vários tamanhos. Logo crescerão e produzirão deliciosos frutos também. E o ciclo recomeça, cada vez mais abundante, em novo patamar de aceitação, perdão, gratidão e amor.

* Texto publicado originalmente na edição de 31 de agosto de 2012 do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.org).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Manejo Agroflorestal do Quintal: um mutirão agroflorestal inesquecível

Aconteceu no domingo, dia 19 de agosto de 2012. Um domingo perfeito com pessoas lindas e incríveis. Mas... vamos às fotos: 


Os meninos chegaram cedo... loucos para podar tudo, cheios de energia e alegria. Iago, Demétrio, Lucas e Tarcísio. Nessa foto, acho que Tarcísio e Iago nem sabiam que estavam sendo fotografados. Os sorrisos são de verdade! Pedi que escolhessem onde queriam manejar. Escolheram esse lugar, embaixo do abacateiro, forrado de helicônias velhas. Pronto. Começou a cortação geral... Importante: picar bem e deixar tudo arrumadinho, encostadinho no chão, bem espalhado, cobrindo bem o solo. Nesses tempos de seca, o negócio é deixar a terra protegida. E, também, prestar bem atenção para não cortar nem pisar nos bebês de árvores espalhados pelo quintal. 


Olha aí o Lucas e o Tarcísio trampando firme. Bonito de ver!


Esse foi o grupo da manhã. Nesse momento, no meio do dia, alguns já tinham que ir. Outros chegariam em breve. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Tarcísio (moço sorridente e silencioso), Armin (que deu um trampo incrível!), Lucas (moço sensível), Loise e Leo (visitantes de primeira viagem, adorei terem vindo; grata pela sacola de sementes... que presentaço!), Lena, Araci (cujas palavras me emocionaram muito logo na roda de abertura), Iago (o tarzan do dia), Mônica, Demétrio (o ajudante de tarzan), Helena (eu) e Aline (amiga querida cada dia mais linda). Inclusive, a Aline e o Guilherme foram os responsáveis, junto do a Lena, pelo almoço espetacular que deu o tom de saciedade e abundância à oficina. Gratidão eterna. Aqui nessa foto de baixo, a Aline e o Guilherme abrem castanhas para o delicioso molho pesto que prepararão para nós em seguida.



Enquanto isso, Isabela, a filha do casal, livre, leve e solta, explora as possibilidades de brincadeira no quintal. Inspiração para a oficina das Crianças!

 Aha!
Onde está Wally? Digo, onde está Demétrio???


Tarzãs do dia!!!
Adivinhem a altura em que se encontra o rapaz abaixo...

 



 Pois é.


E eu, tocando sininho loucamente, anunciando o almoço... achei que comida podia ser algo atraente para moços jovens e cheios de energia, mas que fome o quê? Quem é que tira o moço la de cima? Parece a Patrícia que, quando subiu, não descia nunca mais de tão bom que é ficar lá em cima.
É isso!
Arvorismo de quintal, nova modalidade de esporte: esporte agroflorestal!


Ufa... todo mundo desceu, e vamos almoçar! Dá para perceber a felicidade no ar?


E o povo foi chegando, durante e depois do almoço: Sérgio, Fabi, Cláudia, Daniella, Laís e Daniel, Marcelo. Aliás esses últimos dois estão aí nessa foto de baixo, picando e arrumando sobre o solo a enorme quantidade de massa que veio para o chão com a poda do abacateiro. Alimento para os bichinhos fungos. Que proliferem, tornando cada vez mais vivo o solo desse lugar!  



Aqui, Lena, depois de nos ter alimentado com seu banquete feito de amor, coloca a mão na massa também na organização do material podado. Na foto ao lado, escondida no meio das folhas está a Fabiana, mostrando ao Tarcísio como se maneja um bananal.


Agora, Iago trabalha no chão, em segurança, para minha alegria! Cortar e organizar assim o material no chão faz a gente se sentir parte. Uma coisa tão simples e tão profunda. O tipo de coisa que só a poesia pode, talvez, ser capaz de descrever. Algo que não se aprende em livros nem em filmes. 
Algo que só a vivência pode nos fazer sentir. Só viver torna possível existir.


sábado, 4 de agosto de 2012

Se o que Desejamos e a Vida, por que Criamos Desertos?*

Vou lhes contar três histórias. Descubram o que elas têm em comum.
A primeira aconteceu em uma escola de ensino fundamental em uma pequena cidade do norte de Minas. Fiquei muito intrigada pois, apesar do espaço disponível, não havia árvores. O ambiente era árido e poeirento e as crianças não tinham outra alternativa a não ser brincar sob o sol escaldante. Perguntei. Uma professora me contou que, pouco tempo atrás, haviam sido plantadas algumas árvores. Entretanto, durante as férias escolares, todas as elas haviam sido cortadas por medo de que, quando estivessem grandes, as crianças subissem, caíssem e se machucassem!
A segunda história acontece todos os dias em todos os lugares onde quer que haja araucárias. Vários agricultores em Minas e no Paraná me contaram ser muito comum que qualquer araucária que se atreva a nascer por aquelas bandas seja imediatamente arrancada. Afinal, a araucária é protegida por lei. Seu corte é proibido.  Então para evitar verem suas áreas serem “infestadas” por araucárias que não poderão cortar quando crescerem, arrancam-nas ainda bebês. Aliás, isso é muito comum com toda a Mata Atlântica, ecossistema também protegido por lei. Os agricultores, no temor de “perderem” áreas agrícolas para a floresta, não deixam a regeneração florestal acontecer.
A terceira história aconteceu no meu quintal. Adoro árvores. E o guapuruvu é uma de minhas prediletas. Acho-o lindo, elegante e muito ornamental. Eu sonhava em ter um no meu quintal. Para isso, vivia semeando-o em vários cantinhos até que um dia, finalmente, uma das sementes germinou e se estabeleceu. Apresentei a arvoretinha em crescimento a um visitante. No que ouvi: “mas você não tem medo de que ele caia sobre a sua casa?”. Achei incrível a pergunta. Como eu poderia me sentir ameaçada por aquela arvoretinha da minha altura? Até representar alguma ameaça, aquele guapuruvu enfeitará meu quintal por uns 8 ou 10 anos! Sua presença deixará o solo úmido e o lugar cheio de vida. Quando eu me sentir ameaçada, eu corto. Terei um monte de matéria orgânica para alimentar meu solo e certamente outro guapuruvu crescendo para substituí-lo em belezura pois não parei de plantá-los.
Percebem? Destruímos sistematicamente a vida antes mesmo que ela represente uma ameaça real. Criamos desertos por medo do suposto mal que a vida, nessas histórias representadas pelas árvores, poderá talvez nos causar em um futuro distante. Estamos dispostos a pagar o preço da escravidão consumista, mas não estamos dispostos a lidar os pequenos supostos “incômodos” que a diversidade de espécies essencial à manutenção da vida no planeta nos causam. Nos irritamos com cocôs de passarinho, com folhas do chão, com galhos ou frutas que caem. Mas não nos preocupamos com a perspectiva do aquecimento global, da desertificação ou simplesmente da solidão biológica criada pelo ambiente de aço, vidro e concreto das grandes cidades.
Creio ainda que esse seja um padrão muito comum em várias dimensões da nossa vida, seja ele afetivo ou da expressão dos nossos dons no mundo. Matamos nossas mudinhas antes mesmo de saber se darão bons frutos e boa sombra. Evitamos a vida para não sofrermos um sofrimento que nem sabemos se acontecerá... E se acontecer? Quem teve uma infância de subir em árvores sabe que o eventual (e menor quanto maior a prática) risco de um braço quebrado vale a pena. Ou não?
* texto originalmente publicado na edição de julho do Jornal mensal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.org)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Domingo no Jardim: Uma Oficina de Jardinagem Agroflorestal para Crianças e Adultos



Uma oficina sob demanda!
Alguns me disseram que queriam muito vir às minhas oficinas mas não tinham com quem deixar suas crianças. Outros perguntaram se eu tinha oficina para suas crianças. Janaína apresenta o quintal para sua prima e me encanto! 
Pronto, já tem data. E é no dia 2 de setembro!
Divulgue, compartilhe, convide...

Série "Meu Ambiente": Fogo no Cerrado!

A cada ano que passa, mais e mais, o Cerrado do DF míngua sob a violência do fogo! E continuo ouvindo o disparate de que o fogo é algo natural no Cerrado. Que o fogo é sazonal e há que diga até que é benéfico!
Então vamos colocar os pingos nos is: NÃO é natural o Cerrado pegar fogo todo ano. Não há vegetação que consiga se desenvolver sob "fogo cerrado". Até parece que as tais árvores retorcidas, supostamente evoluídas na convivência com o fogo, gostam. Há quem interprete a rebrota desesperada como aquiescência. Não. É grito de pedido de socorro. A beleza que emerge do Cerrado feito em chamas, o contraste das cores com o negro predominante, a rebrota e verde jovem que pulsa... são tão somente, sob minha visão sempre poética do mundo, a forma desesperada que o Cerrado nos emocionar, nos comover e nos pedir para não mais fazer isso. "Ei... olha só como é lindo!". É isso que ouço das plantas que, por algum tempo, ainda insistem em rebrotar. Em poucos anos, porém, elas desistem, vão se embora, deixando o deserto para trás. Deserto que muitos celebram como oportunidade de negócios... novas terras incorporadas ao insaciável mercado imobiliário. E os bichos? Alguém realmente acha que celebram as queimadas anuais? Quando sinto no ar o cheiro de vida em combustão, meu coração diz que não e chora. Por isso, peço divulgação do vídeo abaixo, com o Vandeir, cujo coração também chora quando vê fogo lambendo o Cerrado. Que Vandeir possa tocar o caração das pessoas que o ouvirem.
Esse é um dos episódios inéditos da série "Meu Ambiente", que fiz quando estava na TV Brasil em 2009. O desafio de emocionar e mover para ação em 1 minuto! 

Ficha Técnica

Direção, Roteiro e Edição: Helena Maria Maltez
Imagens: José Gomes
Produção: Daniela Bueno
Trilha Musical: Ben Charles
Supervisão Geral: Chico Daniel Silva



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Das Embalagens ao Lixo*


O que você vê quando entra em uma dessas grandes lojas de cosméticos cheias de corredores e prateleiras lotados de potes, tubos, frascos? E o que vê quando entra em um hipermercado cheio de corredores, prateleiras, caixas, embalagens, potes, frascos, tubos?
Eu vejo lixo. Montanhas de lixo. E imagino que no prazo de, em média, 1 ano, tudo o que estou vendo se tornará lixo, amontoado nos lixões a céu aberto ou boiando em rios, mares, oceanos.
Se forem vendidas, se tornarão lixo assim que os consumidores descartarem as embalagens nas suas lixeiras. Se não forem vendidas, se tornarão lixo da mesma forma, pois tudo tem prazo de validade e, antes que o prazo de validade se esgote, tudo o que está vencendo será devolvido ao fornecedor, que jogará tudo no lixo.
E são milhares e milhares de lojas de cosméticos, supermercados, hipermercados, pontos diversos de venda espalhados pelos mais por pelos quatro cantos do nosso país e mundo.
Não é por menos que no meio do Oceano Pacífico bóia um continente de lixo destruindo a vida e contaminando tudo ao redor.
Alguém certamente vai pensar... Reciclagem!
Alto lá! Quanto disso tudo é realmente reciclado? Quanto disso é, de fato, reciclável, se se levar em conta a mescla de materiais utilizados nas embalagens inviabilizando sua reciclagem? E mais ainda: reciclar consome uma quantidade imensa de água e energia. Portanto, reciclar não é panacéia.
A coisa foi perdendo o controle de tal forma que cada um de nós se sente impotente diante da imensidão do problema. Muita gente ganha muito dinheiro com essa máquina de produzir lixo. Todo mundo finge que não vê (ou não vê mesmo... não sei o que é pior!) e a coisa toda vai crescendo numa velocidade estarrecedora. A pretexto de gerar emprego, a cadeia que vai desde a extração de cada uma das matérias primas que compõe cada um dos produtos e suas embalagens até os contratos milionários para coleta do lixo nas cidades, gera, na verdade, externalidades múltiplas que estão fora do alcance dos nossos inocentes olhos. Lembrando de apenas algumas, cito o lastro de degradação ambiental e social nos locais de extração (de petróleo, minérios, plantas e bichos), a poluição gerada pelas indústrias, a escravidão das pessoas que trabalham ao longo da cadeia (ou é sonho de criança de todos nós nos tornarmos máquinas que apertam parafusos “à La” Tempos Modernos?)... e, finalmente, as montanhas de lixo que poluem e enfeiam o mundo expondo essa doença social civilizatória que é a sociedade de consumo de massa.  
Alimentados por propagandas enganosas e embalagens luxuosas, nossas fantasias consumistas são insaciáveis. Mal compramos aquele xampu  da embalagem colorida e não vemos a hora que ele acabe para podermos experimentar aquele outro mais novo lançamento. Nas embalagens, os produtos se promovem de todas as formas, seja anunciando-se como “lançamento”, “novo”, “nova embalagem”... seja seduzindo o consumidor cativo mais conservador:  “desde 1950”, “tradição”, “há 30 anos...”.
O que há por trás de tudo isso? O que alimenta nossa sede implacável de consumo? Se a questão é geração de emprego, porque é que todos os processos estão sendo sistematicamente mecanizados e informatizados em detrimento da mão de obra humana? Por que será que todo o sistema de educação vem sendo sistematicamente conduzido a produzir mão-de-obra para o mercado de trabalho ao invés de pessoas aptas a desenvolver suas habilidades e dons a serviço da humanidade? Perguntas que me deixam tonta quando passo diante de uma dessas imensas lojas de cosméticos...

* Texto publicado originalmente na edição de Julho de 2012 do Jornal Deusa Viva, boletim da Teia de Thea.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Série "Meu Ambiente": Carona Solidária

Aqui vai mais uma pílula da série "Meu Ambiente".

Que as cidades estão quase entrando em colapso, acho que não há dúvidas sobre isso. Algumas até já entraram. E que há muitas iniciativas para tentar melhorar os cenários futuros, também há. Projetos buscam alternativas para os mais diversos desafios criando possibilidades de maior bem estar e sustentabilidade nos ambientes urbanos.
Um dos temas inevitáveis é o transporte. Não existe uma solução única. Cada cidade exigirá um complexo arranjo de estratégias que implicarão em mudanças concretas. Obras de infra-estrutura, priorização do transporte público, diversificação dos meios de transporte, estimulo e segurança no uso da bicicleta como meio de transporte, tecnologia de motores e combustíveis mais eficientes e mais limpos, reorganização espacial das cidades, reengenharia no controle de tráfego... muitas são as questões e possibilidades. Muitas alternativas exigirão sacrifícios. Quem está disposto a um pouco de sacrifício para viabilizar o futuro das cidades e o bem estar das próximas gerações?
A carona solidária é uma delas. A cada dia se tornará mais inadmissível uma única pessoa por carro.
Nesse vídeo, Vera Pinheiro nos mostra como transforma limão em limonada e se diverte fazendo carona solidária!

Direção: Helena Maltez
Produção: Daniela Bueno
Roteiro: Eládio Teles
Câmera: José Gomes
Edição: Helena Maltez
Trilha Musical: Ben Charles
Supervisão Geral: Chico Daniel Silva


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Balanço Energético na Agricultura, o que é Isso?

É claro que depois daquela entrevista ao Clarín me lembrei de mil outras coisas que eu também gostaria de ter falado sobre a viabilidade econômica da Agrofloresta.


Uma delas é a questão do balanço energético dos sistemas de produção. Os sistemas de produção agrícola que chamo de industriais (por exemplo soja e milho no modelo do agronegócio) normalmente apresentam balanço energético negativo. Isso significa que a quantidade de energia dispendida no processo de produção é maior do que aquela obtida no produto colhido. Essa energia toda é gasta na fabricação e transporte (às vezes intercontinental) de:


- adubos sintéticos (exemplo: mais de 90% do potássio consumido na agricultura brasileira vem de além mar - http://www.cetem.gov.br/agrominerais/livros/producaopotassio.pdf)
- sementes (nesses sistemas as próprias sementes não podem ser usadas havendo necessidade de serem compradas), 
- tratores, máquinas e implementos, 
- diesel para funcionamento de tudo isso, 
- implementos e sistemas de irrigação, 
- biocidas: inseticidas, fungicidas, herbicidas. 


Uma quantidade imensa de energia é consumida desde o local de extração de cada um dos ingredientes, transporte até a fabrica, fabricação, transporte novamente... quantidade essa jamais reposta pela quantidade de energia contida no produto colhido. Isso é balanço energético negativo. 


Se o que se deseja é realmente trabalhar no sentido de diminuir a quantidade de gases do efeito estufa que emitimos e deter o processo das mudanças do clima, me parece óbvio que não podemos trabalhar com sistemas que tenham balanço energético negativo. 


E a Agrofloresta? Só chamo de Agrofloresta aquela cujo produto contém mais energia do que a energia dispendida em seu processo de produção. E também que deixa um saldo positivo de vida no lugar, ou seja, a quantidade de espécies e biomassa é maior (ou, na pior das hipóteses, igual) depois da colheita do que na hora do plantio! Incrível, mas é assim que os sistemas realmente sustentáveis têm que funcionar, senão, definitivamente, não são sustentáveis. 


Pois é, além do balanço energético negativo, os sistemas de produção industriais deixam para trás, após a colheita, um lastro de destruição e contaminação irreversíveis no curto e às vezes, no médio prazos. Do ponto de vista social e cultural, nem se fale a tristeza que tem sido a imensa perda de diversidade cultural, de saberes, de visões de mundo e formas de relacionamento com a natureza promovida pela expansão dos sistemas de produção industriais. 


E para "encumpridar" um pouco essa prosa sobre viabilidade econômica, gostaria de saber como é que se calcula o conforto de trabalhar na sombra, a alegria da autonomia e independência, a segurança proporcionada pela diversidade de produtos, a segurança e autonomia alimentares, a saúde, o prazer de uma alimentação diversificada, o prazer de trabalhar em contato com a natureza, a beleza dos pássaros, das borboletas, dos lagartos... de todos os seres que vivem conosco na agrofloresta? Como medir isso tudo em valores monetários? 


Muito pano para manga...

Série "Meu Ambiente": Separação do Lixo para Reciclagem

Reciclar... e principalmente Reduzir!
Afinal... a reciclagem consome uma quantidade enorme de energia e água, recursos que temos cada vez mais, aprender a usar com parcimônia. Senão... haja construção de hidrelétricas e mais hidrelétricas a destruir ecossistemas e culturas.  
Então... primeiro é utilizarmos somente o necessário. 
Aí sim, o que for inevitável usar, que seja reciclado. Tecnologia temos. Então porque não acontece ainda? Vários são os motivos. E um deles é a dificuldade que as pessoas têm de separar o lixo em casa. Nessa pílula, Fernanda mostra que a separação virou rotina na sua casa. Incorporada no dia-a-dia da família, não representa peso ou fardo, mas sim o cumprimento de uma responsabilidade que é a de que cada um deve cuidar do seu próprio lixo. Isso sim, é demonstração de cidadania e civilidade. 



Episódio da série de pílulas que realizei quando trabalhava na TV Braisl e que, informalmente, chamávamos de "Meu Ambiente". Esse não foi ao ar. Realizada em abril de 2009, essa série tinha como proposta mostrar iniciativas de pessoas comuns para cuidar na Natureza. 

Ficha Técnica: 

Personagem: Fernanda Quintas; Direção e Edição: Helena Maltez; Roteiro: Helena Maltez e Eládio Teles; Produção: Daniela Bueno; Câmera: José Gomes; Trilha Musical: Ben Charles; Supervisão Geral: Chico Daniel Silva.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Quem vem Antes da Borboleta?


Toda manhã de sábado, tomo café-da-manhã em uma padaria de Santa Maria, um pouco antes de nossa oficina semanal de jardinagem agroflorestal. Nessa padaria, tem uma televisão. Quando bati o olho na tela, alguns sábados atrás, havia muitas borboletas coloridas. Lindas imagens. A moça dizia: “é tempo de borboletas...”. Uma borboleta aparece botando ovinhos. Fico encantada de mostrarem isso e não tiro o olho da tela. Principalmente porque sou fascinada por lagartas. Meus pensamentos aceleram: “será que mostrarão as lagartas?”. E a moça continuou: “As borboletas colocam os ovos e dos ovos surge... o casulo (junto com a imagem de um casulo)”. Fico estarrecida. O que fizeram com as lagartas? Como puderam, nesse vídeo, dizer às pessoas, às crianças, que do ovo surge o casulo? Por que não mostraram as lagartas? Indiferença? Nojo? Medo? Será que é por isso que somos capazes de envenenar o solo e nosso alimento com agrotóximos para nos livrarmos de todas elas? Que fobia é essa de um bichinho tão pequenino e belo? Já notaram os desenhos? O formato dos pelos? As cores? Os disfarces incríveis? As extravagâncias? Se ainda não notaram, dêem uma olhada aí embaixo, logo depois do texto (ou aqui no blog procurando pela palavra-chave lagartas - fotos de várias das que vivem em Abaetetuba, quintal agroflorestal onde vivo) . Se são tão belas, por que as pessoas têm tanto horror às lagartas? Uma razão racional parece ser o fato de elas se alimentarem de folhas. E muitas vezes, folhas de alguma planta que gostamos muito. Então concluímos que as lagartas são pragas. Um desses seres terríveis que destroem o que plantamos. Seres maus que atrapalham nossas colheitas e a beleza do nosso jardim. Ledo engano...

As lagartas, assim como as formigas e todos esses bichinhos que a maior parte das pessoas chama de praga, fazem parte do que minha amiga Patrícia Vaz chama de “departamento de otimização dos processos de vida”. Pedro, um agricultor do Vale do Ribeira (SP) explica isso dizendo que esses bichos todos são nossos mestres, pois eles nos mostram onde foi que erramos no plantio ou no manejo. Pois é, a gente vai aprendendo com a prática. E erra muito. Então, quando plantamos alguém no lugar errado ou na hora errada, os bichinhos vão lá e fazem o favor de tirar a planta daquele lugar porque ali não está bom para essa planta e ela, provavelmente, também não será favorável para aquele lugar. Também tem outro tipo de situação. Algumas lagartas simplesmente fazem uma faxina geral de vez em quando. Podam todas as folhas e a planta rebrota cheia de folhas novas e saudáveis que, quando velhas, serão novamente podadas pelas trabalhadoras lagartas. Além disso, as lagartas, assim como as minhocas, transformam, na sua digestão, as folhas em adubo. Tudo de bom. Mas... mesmo que as lagartas fossem feias e não servissem para nada, definitivamente, é muito importante que todos saibam e as crianças aprendam desde cedo que sem lagartas, não existem borboletas, assim como não existem adultos se não existirem bebês. Simples assim. E sem borboletas, perderemos não somente a beleza das suas cores e a elegância do seu vôo. O mais grave é que muitas e muitas flores deixarão de ser polinizadas. E sem polinização, não há frutos (desses que a gente gosta de comer também). E sem frutos, não há sementes. E sem sementes não há possibilidade de continuidade da vida. Simples e dramático assim.
Portanto, observemos o lindo trabalho que as lagartas fazem e sejamos gratas por sua existência, por sua beleza e pela possibilidade que temos de observá-las. 

Abaixo, fotos das incríveis lagartas da Vila das Crianças. Todas essas fotos foram feitas pelas nossas lindas e queridas alunas.















segunda-feira, 4 de junho de 2012

TEDx Buenos Aires: Agrofloresta, una Cultura de Cuidado con la Vida

Pronto! Está na net a minha fala no TEDx Buenos Aires. Para mim, foram 18 minutos de pura adrenalina. Quando acabou, eu não fazia a menor ideia do que tinha dito. Dois momentos inesquecíveis: no primeiro minha filha, que estava na platéia, me diz, com largo sorriso de alívio no rosto, assim que desço do palco: "Foi maravilhoso!". Ela que é minha crítica mais contundente e sincera. O segundo foi na saída do teatro, ao final do dia, quando um rapaz me aborda e agradece: "Você me fez voltar ao quintal da minha infância, na casa da minha avó". Nesse momento, senti que tudo tinha valido a pena.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pequena Introdução à Economia Clássica*

Preâmbulo
Economia: “Gestão da Escassez”

Minha caçula, de 9 anos, me disse que, quando crescer, quer ser estilista. Naturalmente, fica com pressa para ficar adulta! Mas eu não tenho essa pressa toda. Então eu lhe disse: “Você pode ser estilista agora. Não precisa esperar ser adulta para isso. Pronto, você já é estilista! Posso fazer uma encomenda?”. Pedi a ela que desenhasse um vestido para mim, e eu levaria o modelo para uma costureira fazer. Enquanto isso, comecei a procurar uma costureira para fazer o vestido. Mas qual o quê! Não encontro costureira que trabalhe com malha. E o vestido que Jana desenhou é de malha. Malha, só mais de 40 peças! Só em escala industrial.
Comecei a pensar... quanto tempo leva para se fazer um vestido? Uns 2ou 3 dias? Quanto uma pessoa precisa para viver dignamente, do jeito que ela deseja, já que esse é um direito de todos, já que somos (ou não somos?) todos iguais (em nossa imensa diversidade). Aliás, quanto você merece ganhar para viver dignamente, do jeito que deseja? Essas reflexões me levaram a pensar que o vestido feito por uma costureira custaria muito mais do que eu posso pagar, no mínimo uns R$ 600 (isso sem remunerar a arte da minha filha estilista)! E como pode então que um vestido custe 1/6 disso em uma loja de departamentos? Depois dos custos de material, impostos, lucro da loja, marketing, do transporte de peças e materiais... quanto ganha a pessoa que fez essa roupa? Como ela vive? O que come? Em que condições trabalha? Como cuida de suas crianças? Que meio de transporte utiliza para ir ao trabalho? Ela vê o resultado de seu trabalho completo? Ela se realiza com o que faz? Quem ganha com o seu trabalho?
Se o que desejamos é um mundo em que todas as pessoas sejam felizes, me parece óbvio que essa economia simplesmente não nos serve. A conta nunca vai fechar. Então, é hora de inventarmos uma outra coisa para substituí-la!

* Este texto não tem nenhum compromisso com as teorias clássicas de Economia. Trata-se de uma ficção documental, ou documentário poético... O título tem caráter tão somente estético.