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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Mel... eu quero Mel, quero mel de toda flor

Da esquerda para a direita: mel de abelhas nativas do sítio do Jurandi -  Cafarnaum - BA; mel do norte da Noruega,  presente maravilhoso de família especial; mel da Fazenda São Luiz - São Joaquim da Barra-SP.
E viva a diversidade!

Adoro mel. E soube que é calmante também. Foi Cimara quem me contou. Uma colher antes de dormir e aquela agitação vai-se embora deixando-nos descansar.
Na natureza, as coisas nunca se repetem de maneira completamente igual. Cada mel é diferente do outro. Cada vez que um mel é retirado da colmeia, é impossível saber a priori que gosto terá. Porque trata-se de uma combinação única daquela exata quantidade de néctar de cada flor que estiver florindo naquela exata época naquele exato lugar. O mel de outra caixa, a 50m de distância poderá ter outro sabor, discreta e delicadamente diferente. Afinal, outras flores estarão por ali ou em proporções diferentes. 
Mas nossa cultura ocidental capitalista nos diz que queremos saber exatamente o sabor daquele mel antes de comprá-lo. Para que todos os potes de mel tenham o mesmo sabor, foram desenvolvidas gigantescas máquinas para homogeneizar todo o mel da safra. Misturando tudo, um gosto só. E, pronto, agora podemos saber que gosto terá aquele pote de mel.
Que medo é esse de experimentar algo novo, inesperado? De onde vem essa necessidade termos tudo sob o mais absoluto controle? Porque temos tanta dificuldade de lidar com o desconhecido?
Outra estratégia para que o sabor do mel seja previsível é colocar as caixas de mel dentro de plantações enormes de uma mesma espécie de planta. Obter-se-á um sabor previsível e homogêneo. Mas... esse mel de sabor previsível veio de uma plantação homogênea que, por definição, não pode ser sustentável.
Só um ecossistema biodiverso e sustentável gera méis diversificados feitos por diversas espécies de abelhas.
Enfim, parece-me que nossa curiosidade por experimentar e nosso prazer em apreciar diferentes sabores de mel também é uma atitude importante se o que desejamos são florestas ricas, biodiversas e abundantes enfeitando nosso planeta. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

As Palavras

As palavras borbulham na minha cabeça querendo combinar-se, unir-se, 
juntar-se em combinações perfeitas, harmônicas, equilibradas.
Ah... quem se juntará com "intempestiva"? 
Quem terá coragem de compor algo com "medo"? 
Elas se trombam, se embaralham, formam frases sem sentido.
Se juntam contando estórias, sonhos, desejos...
De repente, se dão conta de que não são compreendidas 
e tentam reagrupar-se de maneira mais simples, honesta, clara. 
Nisso, algumas ficam de fora... somem no ar... deixam de existir. 
E outras, que pareciam não se encaixar, encontram seu perfeito lugar. 


sábado, 19 de novembro de 2011

Série "Meu Ambiente": Lixo Orgânico vira Húmus com Minhocário Caseiro

Aproximadamente 50% de todo o lixo jogado nos lixões brasileiros é composto por lixo orgânico! Transformamos diariamente milhões de toneladas de ouro potencial em problema gravíssimo. Problema porque é justamente essa parte do lixo que causa o maior impacto ambiental nos lixões. Além de atrair ratos e outros bichos nocivos, o chorume produzido polui o solo e o lençol freático. Ouro porque todo lixo orgânico pode se transformar em adubo da maior qualidade. Anacrônico, não é mesmo?

Muitos não sabem o que fazer com o lixo orgânico. Até separam o lixo seco e enviam para reciclar. Mas o incrível é que temos muito mais autonomia para transformar o lixo orgânico do que o seco. Quem de nós consegue reciclar o vidro, o metal ou o plástico? Papel é até possível, apesar de trabalhoso. Mas o orgânico, é tão fácil que não há desculpas para continuarmos misturando com o resto e enviando para os lixões. Como? Utilizando um minhocário caseiro. É o que o Rogério mostra nesse videozinho que fiz para a TV Brasil em 2008.

Se todos nós reutilizássemos o lixo orgânico que produzimos, haveria uma redução drástica na necessidade de coleta pelos caminhões de lixo. Metade dos caminhões dariam conta. Reduziria também a emissão de CO2, o trânsito e a manutenção das ruas. Tudo de bom... Então por que ainda não acontece?



FICHA TÉCNICA
Personagem: Rogério Vereza
Gravação: 28/04/09
Direção: Helena Maltez
Produção: Daniela Bueno
Roteiro: Eládio Teles
Câmera: Henrique Crasto
Edição: Helena Maltez
Trilha Musical: Ben Charles
Supervisão Geral: Chico Daniel Silva

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vozes da Deusa - Primeiro CD das Melissas

Acaba de sair do forno o vídeo que fiz da gravação do primeiro CD das Melissas, grupo vocal da Teia de Thea! Foram dias intensos e lindos, de convivência amorosa e alegre. Incrível a amorosidade, profissionalismo e respeito com que Felipe e Aninha conduziram a coisa toda! Agradeço demais pela oportunidade única de poder registrar momento tão mágico.

sábado, 29 de outubro de 2011

Semente, Bebê de Planta


Acho que foi de Fabiana (dona dessa mão que segura uma semente de pupunha germinando) que ouvi pela primeira vez essa história de semente ser bebê de planta. É incrível como a gente nem sempre se dá conta das coisas óbvias. Nunca mais pude ser a mesma depois que Fabiana me disse isso. Afinal, como é que eu poderia, dali por diante, jogar um punhado de sementes de mamão na lixeira? Como eu poderia fazer isso sabendo que de cada uma daquelas dezenas de sementes poderia surgir um mamoeiro que, por sua vez, poderia produzir dezenas de mamões, uma de minhas frutas prediletas? A Fabiana tem um poema lindo que fala sobre isso, sobre a potencial árvore que existe dentro da semente e junto com a árvore, os pássaros, os grilos, as lagartas, as borboletas, as frutas, as sementes e novamente as árvores.

A capacidade da vida em produzir vida é algo assombroso! Uma vez tendo mamões no quintal, dificilmente você deixará de tê-los para sempre. Sem fazer esforço nenhum. Somente deixando que as mudinhas plantadas pelos passarinhos cresçam. E assim com todas as outras. É incrível como a vida insiste e surge, como ela se apresenta em toda sua abundância e beleza se deixarmos que ela venha, se intervirmos somente na medida em que pensarmos sobre como cada um de nossos atos de manejo pode gerar mais vida do lugar em que vivemos.

Por isso, hoje, depois de uma manhã plantando e manejando com as meninas da Vila das Crianças, me sinto cheia de esperança e de vontade de fazer mais e mais... Cheia de energia para continuar, prosseguir e fazer o que tem que ser feito.

sábado, 22 de outubro de 2011

Série "Meu Ambiente": Bicicleta como Meio de Transporte

Essa foi a segunda pílula realizada para a série "Meu Ambiente" (que, no final das contas, nem se chamou assim porque o nome já estava registrado!), e a primeira que eu editei praticamente sozinha. Era domingo e o Henrique, meu colega na TV Brasil, me ensinou a usar o Adobe Première Pro. De madrugada eu tinha terminado. Virou minha cachaça. 

Na busca de personagens para esse filme, conheci várias tribos que curtem a magrela no esporte e no lazer. Também conheci o pessoal dos movimentos que discutem a questão da mobilidade urbana. Foi então que aprendi que não se trata somente de usar a bicicleta no lugar do carro, além disso, é necessário repensar as cidades para que: (i) não precisemos nos deslocar tanto; (ii) haja um sistema de transporte público de excelência, que atenda a cidade toda com conforto e segurança; (iii) se desenvolva uma cultura de paz e respeito no trânsito entre bicicletas, carros, veículos coletivos, motos, caminhões... ; (iv) haja um sistema de ciclovias que realmente correspondam às necessidades de deslocamento das pessoas e não somente passeios que não levam de nenhum lugar a lugar nenhum, e assim por diante.

Bicicletas e pedestre sofrem em Brasília. O que mais me impressiona, me inquieta e me deixa indignada é a falta de calçadas. Fico atônita. Fora do Plano Piloto simplesmente não há calçadas! Quem pode imaginar uma coisa dessas? Uma cidade sem calçadas! Uma visão bizarra: legião de pessoas caminhando na beira do asfalto, no meio da grama, na terra. A cidade se expande à velocidade da luz e os erros se perpetuam, cada centímetro sendo incorporado ao patrimônio privado em detrimento do espaço necessário para o deslocamento seguro e agradável das pessoas. Enfim... muito a se fazer, muito a se mudar, muito a se pensar e mil soluções possíveis.

Personagem: Manuel Corrêa
Direção: Helena Maltez
Câmera: José Gomes
Roteiro: Eládio Teles e Helena Maltez
Edição: Helena Maltez 
Produção: Daniela Bueno
Trilha Musical: Ben Charles
Supervisão Geral: Chico Daniel Silva




quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Série "Meu Ambiente": Sacolas Ecológicas

Finalmente, compartilho aqui os filmetes da série "Meu Ambiente" que dirigi quando eu estava na TV Brasil. Foi-me pedido para bolar uma série de interprogramas de 1 minuto sobre meio ambiente para ser exibida nos intervalos da programação.

Primeiro pensei: "1 minuto? Mas isso não é nada...". Então resolvi fazer uma limonada. E descobri que 1 minuto pode ser bastante tempo! E que às vezes é suficiente. Foi então que decidi mostrar pessoas reais, que incorporaram no seu dia-a-dia atitudes simples que elas consideram que contribuem com a conservação da natureza. Todos os personagens falam com o coração, falam a partir de uma verdade acreditada e vivida. Conheci pessoas incríveis. Quase todas se tornaram amigos ou amigas. Qual não foi minha surpresa quando comecei a mostrar os vídeos nos lugares onde eu ia e as pessoas se envolviam, queriam contar o que faziam, se comprometiam a assumir novos hábitos. Percebi a força da fala e da biografia das pessoas. Algo óbvio e publicado em verso, prosa e trabalho científico: a empatia que acontece quando alguém faz algo bom, quando alguém mostra que é possível e fácil fazer o bem. Foi então que me tornei, magicamente, documentarista.

Esse que apresento aqui, sobre o uso de sacolas ecológicas ou permanentes, foi o piloto da série. Tema atualíssimo e muito mal resolvido. Todo mundo sabe o impacto que essas sacolas estão causando, há legislação em vários países e em vários municípios brasileiros, mas essas leis não conseguem entrar em vigor ou serem implementadas por esse motivo ou aquele. Um desses ou daqueles é, obviamente, a indústria de sacolas de plástico, que chora a perda de empregos que o fim das sacolas causaria! E argumenta que o problema não é o plástico, são as pessoas que os jogam em qualquer lugar! Enfim... essa loucura toda que faz a minha cabeça girar... e querer fazer mais filmes... mostrando as alternativas, as possibilidades, as saídas, a mudança necessária para continuarmos desfrutando da maravilha que é viver em um Planeta Vivo chamado Terra.

A personagem desse piloto é Taís Benato, que se tornou amiga querida depois que a série nos apresentou uma à outra. Foi ela que me mostrou um de meus filmes prediletos: "La Belle Verte", que sempre exibo nas minhas oficinas de jardinagem agroflorestal. Valeu Taís!

Ficha Técnica:
Concepção e Direção: Helena Maltez, Câmeras: Henrique Adônis Lucena, Roteiro: Helena Maltez e Eládio Teles, Edição: Henrique Crasto e Helena Maltez, Produção: Daniela Bueno, Trilha Musical: Ben Charles; Supervisão Geral: Chico Daniel Silva.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Filtro de Café Santa Clara

A Fabiana me enviou uma mensagem perguntando se o filtro Santa Clara é de papel e se o café é bom!

Aproveito para continuar a história:

Quando vi que o Santa Clara era o único filtro de papel naquelas prateleiras, decidi experimentar o café Santa Clara para valorizar a iniciativa e porque quero mais é que eles vendam bastante e consigam se manter no marcado. Já pensou… ficar sem filtro de papel!

Ao passar o café, eu não tinha expectativa nenhuma, então fui sendo suavemente supreendida pelo aroma que se espalhava pela cozinha. Retornei à casa de meus tios, no interior de São Paulo, onde eu passava férias. Lembrei-me do quanto me encantava o amor entre meus tios. Ele acordava bem cedinho e fazia o café. Quando ela acordava, a casa inteira cheirava a café. Foi assim que ficou minha casa: cheirosa a café. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Filtro de Café

Fui ao supermercado comprar filtro para fazer café. Olhei na prateleira e logo vi a marca que costumo comprar... em confiança. Nem li nada, fui pelas cores e pelo nome. Afinal tudo é planejado para fazermos exatamente isso, não é?

Quando cheguei em casa e tirei o filtro do pacote, senti que era diferente. Ops... Era igual a um que, certa vez comprei, inadvertidamente. Era de outra marca. E não era de papel. Naquela ocasião, quando fui ao supermercado, olhei a embalagem e vi, em um círculo, escrito: “Lavável 5x Reutilizável”. Ecológico. Como busco ser uma consumidora responsável, isso chamou minha atenção e comprei o tal filtro. Ao chegar em casa, constatei que era “ecológico” porque era de TNT (Sintético ou natural? Existe mesmo TNT de fibras naturais? Enviei mensagem para o fabricante de TNT e ainda não me responderam) e, por isso, reutilizável!!! Naquela época fiquei furiosa por ter sido tão enganada. Comprei um negócio pensando que era ecológico e era de plástico*. Muitos plásticos, segundo muitas pesquisas, liberam oxidantes cancerígenos quando submetidos a altas temperaturas. Chá de análogos de estrogênios. É isso que podemos estar tomando quando utilizamos esse tipo de material como filtro de café. Será o caso do TNT? Eu não sei. Pode ser que não. Ou pode ser que sim. Tanto faz, afinal, eu não preciso correr esse risco. Posso usar papel, que depois de usado e cheio de borra de café vira o melhor adubo para o meu quintal. E na embalagem do tal filtro de TNT, querem nos convencer de que isso economiza o corte de árvores!!! Como podem ter a coragem de dizer isso ao consumidor incauto? E logo àquele consumidor que quer ser bacana, honesto, que quer cuidar do planeta? Aquele tiquinho de papel, comparado ao papel da embalagem e de tudo o que a empresa usa de papel ao longo dos seus processos... Esse fabricante “ecológico” está realmente preocupado com as árvores que serão supostamente poupadas?

E sobre a suposta economia de corte de árvores?
Se quisermos ter papel no médio e longo prazo, temos que plantar florestas. E isso não é bom? Ou é melhor usar o plástico que vai demorar séculos para desaparecer na natureza, com suas micro-partículas boiando e se espalhando pelos mares e oceanos? Será que é melhor usarmos o plástico que prescinde a necessidades de florestas para, assim, não precisarmos mais nos preocupar em conservá-las e plantá-las? Será mesmo que é melhor substituirmos tudo por plástico e ficarmos independente das árvores?

Voltando ao início da nossa história...
Quando me dei conta de que esse filtro comprado agora era como aquele da primeira vez em que fui enganada, parei. Calma... Eu podia estar enganada. Procurei na embalagem o material de que era feito o filtro. Não havia. Isso mesmo, na embalagem não está escrito do que é feito o material pelo qual passará a água quente do nosso café! Vou pesquisar, mas acho que isso é ilegal. Fiquei furiosa por ter sido enganada novamente. E, dessa vez, por uma marca que eu tinha escolhido depois do primeiro episódio justamente na busca de filtros de papel. Calma... é melhor ter certeza do que é feito o filtro de papel e saber se é plástico mesmo. Tentei ligar no número de telefone que está na embalagem e ninguém atendeu.

Primeiro, pensei em processar. Depois pensei que seria perda de tempo e não deveria me envolver tanto com isso. Depois decidi comprar um filtro de papel, fazer um café e pensar com calma no que faria.
Voltei ao supermercado e fui às prateleiras dos filtros para fazer café. Pasmem... Havia uma única marca com filtros de papel. Todas as outras anunciavam em suas caixinhas as maravilhas de seus filtros ecológicos que podem ser usados até 5 vezes!

Dei-me conta, mais uma vez, de como o plástico está invadindo tudo. Estamos deixando que substituam tudo por plástico. Montanhas e montanhas de plástico. Toneladas, bilhões de toneladas!!!
Não será melhor para Mãe Terra se cobrirmos o Planeta de florestas produtivas e usar sua madeira, sua biomassa que acumula carbono, para as nossas necessidades humanas. Ela apodrece? Que ótimo! Teremos sempre que plantar mais e mais florestas. Porque queremos, supostamente, que as coisas durem para sempre?

Que engraçado, no argumento de que queremos que as coisas durem mais, ou para sempre, usamos o plástico em todos os lugares. Só que duram para sempre até quando não nos sirvam mais. Que paradoxo. Aí, ficarão “para sempre” por aí, poluindo terras, mares e oceanos. Ao mesmo tempo, usamos o plástico em todos os descartáveis porque não queremos que as coisas durem para sempre... queremos as facilidades e a rapidez, queremos economizar tempo e não precisar mais lavar a louça.

Isso me lembra outra estória, de um casal de amigos que queria que eu julgasse um caso:

- ela quer jogar fora o colar que lhe dei.
- o colar é de sementes e está desmanchando.

Já que me pediram, dei meu veredicto:
- Mas que bom, assim as sementes em apodrecimento (desde que a pintura seja feita com pigmentos e resinas naturais) adubam a terra, fecham seu ciclo e você poderá presenteá-la com um novo colar...
Que surjam e se multipliquem os negócios realmente sustentáveis, os negócios realmente ecológicos!

* uso, aqui, o termo "plástico"como tudo o que é sintético feito a partir de derivado de petróleo. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Quem Floresce Hoje em Abaetetuba?

Ao molhar as plantas hoje de manhã, dei de cara com um jardim em flor! Quem floresce hoje em Abaetetuba, meu quintal agroflorestal cheio de gente boa? Vejam só:















terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cocô de Passarinho


Um dos participantes da minha última oficina de Jardinagem Agroflorestal compartilhou conosco sua indignação com o corte sistemático das árvores da Asa Sul. O motivo dos cortes? As folhas que sujam o chão (!) e os cocôs de passarinho que caem sobre os carros!

Noooossa!!!
Que sociedade é essa em que a pintura de um carro vale mais do que uma espécie de passarinho? Em que um objeto vale mais do que a vida? Em que prefere-se que o carro queime ao sol do que correr o risco dos passarinhos sujarem-no com seu infame cocô dispersor de sementes? Será que tem-se consciência de que sem as árvores os passarinhos desaparecerão (ou, pelo menos, a maior parte deles espécies)? Será que é um desejo consciente de eliminar os passarinhos de nossa vida humana?

Lembrei-me de outra estória. Fui a uma funilaria certa vez e vi que havia muitos carros. Perguntei: “Muito serviço, né? Muitos acidentes?”. E o funileiro me respondeu: “Não... a maior parte está aqui para fazer a pintura do teto. Estou nisso há 30 anos e nunca vi a pintura queimar tanto com o sol. Ou a pintura é mais vagabunda ou o sol está mais forte.”

Quanta gratidão devemos ter àqueles que, de forma visionária, plantaram tantas árvores no Plano Piloto que, graças a isso, é uma das áreas urbanas mais arborizadas do Brasil! Mas daqui para a frente, corremos o risco de não fazer o mesmo para os que virão depois de nós. As árvores adultas estão sendo cortadas sistematicamente e não há árvores novas para repor as que se vão. Ao mesmo tempo (e por causa disso), o sol está cada vez mais escaldante...

A solução apontada pela sociedade da tecnologia? Construir cada vez mais prédios altamente climatizados onde estacionaremos nosso carro em conforto e segurança.

Estamos exatamente em um desses momentos em que o livre-arbítrio nos permite escolher destinos: um mundo de concreto e cimento armado, aço e vidro, hermeticamente fechado contra o calor lá de fora e onde viveremos (o ser humano) sem o incômodo de nenhuma outra espécie a nos chatear ou ameaçar. A outra opção? É a de aceitarmos agradecidos de que não somos a única espécie nesse planeta lindo e que a boa convivência entre nós e as outras depende de as aceitarmos em nossas vidas, em nosso cotidiano. É a de repensarmos o que realmente é importante, de darmos valor ao que tem valor. Para isso, talvez precisemos nos acostumar com os cocôs dos pássaros, com as folhas adubando o solo, com insetos e pequenos seres decompondo a serapilheira do nosso jardim, com bichos diversos visitando a nossa horta e o nosso pomar.  Quem sabe até possamos passar a desejar essa visita e a nos alegrar por não vivermos sozinhos sobre a Mãe Terra.  

domingo, 4 de setembro de 2011

A Segunda Oficina de Jardinagem Agroflorestal

Foi pura magia... e muito aprendizado para todos nós. A incrível diversidade de pessoas que vieram trouxe uma riqueza inestimável ao nosso final de semana encantado. Fiquei feliz em ouvir que alguns perderam o medo de arriscar, de tentar, de plantar. Mais feliz ainda quando uma das participantes me disse que já começou a planejar as mudanças que fará em seu jardim. Parece que até salvei um casamento porque agora ela passou a compreendê-lo um pouco mais (ele já é um iniciado em Agrofloresta!). Grata a vocês, que vieram e fizeram possível a Oficina acontecer.

Participantes põe a mão na massa...

... para plantarmos um canteiro circular.

Pena que alguns já tinha ido embora... mas deu para registrar a felicidade do canteiro concluído!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Seu Valdir

Estou filmando esses dias um encontro entre agricultores que plantam árvores no Cerrado organizado pela Embrapa e ISPN. Uma honra. Reencontrei Seu Valdir, agricultor que está se tornando referência em Agrofloresta aqui no DF. Decido aproveitar a oportunidade para lhe entregar em DVD o filme "O DF que Queremos". Procurando esse, acho outro, só com o Valdir, que eu havia esquecido ter feito! Faz tanto tempo...  Ah... quando todos os agricultores do país descobrirem como é bom fazer Agrofloresta...


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Colheita Inesperada

Ouvi gritos de periquito no quintal. Chegara a hora de colher aquele enorme cacho de banana. Sempre deixo eles comerem as primeiras. São lindos... e adoro que visitem o meu quintal. Mas também gosto de colher o que planto e manejo. Gosto do sabor da fruta sem veneno e com amor.

O pseudocaule era bem grosso. Uma bananeira e tanto.
Na minha última aventura em colher cachos de banana sozinha, quase que perco o pequizeiro que estava na direção da queda da bananeira.
Olhei em volta da bananeira e vi uma jovem laranjeira.... dei uma volta em torno dela... observei a localização do cacho... e escolhi onde cortar tentando poupar a jovem laranjeira... pedi à Grande Mãe que cuidasse... para que a bananeira caísse exatamente onde tivesse que cair para o bem de todos os seres que ali viviam. Nesse momento, pensei em Jamie Sams e no seu maravilhoso livro "Dançando o Sonho". Em toda a sabedoria ali contida. Na sua generosidade em compartilhar. Na minha gratidão em ter acesso a essa sabedoria.

Comecei a cortar o pseudocaule com um facão do lado da queda... depois do outro lado... com um só golpe do outro lado, ela caiu.... e vi ramas sendo quebradas...
Quando olhei para baixo vi algo surpreendente.
Uma estrela de raízes de mandioca.
Fui para a cozinha com um cacho de banana e uma bacia de mandioca debaixo dos braços.
Comida para mais de semana.
Me senti presenteada.
E agradeci.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cores, Formas e Movimento...

... na dança (dos Yawalapiti ou Kayapó?) que tive o privilégio de ver na Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Semana passada, julho de 2011. Um canto lindo de emocionar. A harmonia das cores no encontro com o canto me levou a fazer essas imagens na minha máquina fotográfica:

terça-feira, 26 de julho de 2011

Construção do Conhecimento Agroecológico

Fiz esse vídeo já faz tempo... mas faltavam as legendas. Finalmente, ficou pronto. Só que agora ele já faz parte de uma leva de filmes de uma fase anterior... os primeiros... feitos em condições totalmente desafiadoras, com câmeras domésticas... Ainda assim, compartilho aqui porque toda vez que o assisto, gosto muito. Espero que gostem também.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Trânsito das Coisas

   Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer no futuro, mas existe uma sensação geral e dados científicos que indicam que algo JÁ está acontecendo com o clima da Terra. Uma das questões mais importantes e talvez a menos tratada com relação à mudança do clima é o trânsito das coisas. Talvez algo como metade de toda a energia que gastamos no planeta é utilizada para transportar coisas e pessoas de um lado para o outro. Talvez mais. Mais de 30% das emissões brasileiras de gases do efeito estufa se devem ao transporte. Por que será que esse não é assunto prioritário nas políticas, planos e estratégias em pauta?

   Dou um dos muitos exemplos possíveis: Vejam quanta energia é gasta em transporte para que uma porta de madeira de lei da Amazônia seja utilizada na reforma de um apartamento aqui em Brasília: Os tratores e demais ferramentas e máquinas utilizados na extração da madeira podem ter sido fabricados em Canoas/RS com ferro que foi transportado de jazidas da Bahia ou de Carajás/PA. O diesel para movimentar tratores e máquinas na Amazônia talvez tenha vindo de uma refinaria do Rio de Janeiro.  E os componentes eletrônicos? Quem sabe tenham vindo da China. E o banco do trator? E os componentes de plástico do trator, de onde saíram até chegarem em Canoas? e assim por diante...  Depois de extraída e serrada, mais energia é gasta para transportar a madeira em tábuas até Brasília. Isso sem falar do transporte de pessoas e alimento para o local da extração, cada vez mais distante, já que a extração de madeira de lei na Amazônia ainda é, pasmem, muito mais uma estratégia para o desmatamento do que fruto de manejo sustentado.

   Não seria muito mais inteligente rodear Brasília de florestas diversificadas de madeira de lei? Além de ficar lindíssimo, o clima seria, certamente, mais ameno, a umidade do ar, maior. As águas voltariam a correr alimentando os principais rios do Brasil que aqui nascem. Se essa madeira for plantada em agrofloresta, teremos também muitas centenas de toneladas de alimentos produzidos localmente. São só vantagens. Então por que continuamos trazendo madeira lá da Amazônia ao invés de produzir localmente? Por que, ao nosso redor, geramos destruição ao invés de gerar a vida que gera a matéria prima que necessitamos para nossas atividades? Por que não fabricamos aqui mesmo, no DF, as máquinas necessárias para realizar todo o processo? Por que não produzimos aqui mesmo todo o alimento que consumimos?

   Tenho alguns palpites: Na nossa economia distorcida, ganha-se mais dinheiro com o transporte do que com o que é transportado. Transportadoras, fábricas de caminhões, impostos e, principalmente, petróleo, fazem a roda da fortuna girar. Porque será que nenhum plano relacionado à questão do clima fala de reduzirmos a produção de petróleo, ponto de partida se há real preocupação com o clima? Outro palpite: Lamentavelmente, o grande negócio na Amazônia ainda é, como era há 100 anos, a especulação da terra. O grande negócio ainda é ganhar dinheiro desmatando a terra para vendê-la ao pecuarista (já temos mais cabeça de gado no Brasil do que pessoas... e eles emitem metano, um dos mais potentes gases do efeito estufa). É incrível, mas a terra nua ainda é mais valiosa do que a terra com floresta, considerada improdutiva! Que economia é essa que nos faz viver sob a ameaça de que se não gerarmos divisas, se não exportarmos mais do que importamos, o país quebra?

   Por tudo isso, é hora de termos idéias criativas de como fazer as coisas pararem de circular pelo Planeta. É urgente produzirmos o que precisamos localmente. Como começar? De uma maneira simples: consumirmos sempre a opção de produto local, pensarmos sempre se realmente precisamos daquela bugiganga que veio da China ou da Coréia para sermos felizes, comprarmos nosso alimento nas feiras de produtores locais ao invés de hipermercados, etc. Somente assim contribuiremos de fato para fomentar a produção local e para diminuir o desperdício de energia com o trânsito desnecessário de coisas. Tanto melhor para Mãe Terra!

*** Sugiro, aos que ainda não assistiram, o filme "A Estória das Coisas", disponível no youtube. 

domingo, 8 de maio de 2011

Feliz Dia da Mães!*

Hoje é dia das Mães, dia criado para vender coisas e fazer a roda da fortuna girar, mas que, como efeito “colateral”, lembra às pessoas para pensarem em suas mães e as presentearem. Aquela que foi o meio pelo qual o Grande Mistério nos fez chegar a esse mundo para vivenciar essa jornada. Aquela que cuidou de nós quando éramos bebês. Que nos protegeu de todos os perigos do mundo até que pudéssemos nos defender por nós mesmos. Aquela que nos ensinou o Amor, para que soubéssemos, ao longo da nossa vida, Amar. Ela, que passou noites em claro cuidando da nossa febre. Que nos banhou, escovou os dentes, limpou a nossa bunda e nos alimentou para que pudéssemos estar aqui, sãos e prontos para trazer mais beleza ao mundo por meio das nossas ações. A que cuidou de nós. Portanto, é dia de honrá-la. Só hoje? Não. Todos os dias. O dia das Mães serve para que os que se esqueceram disso se relembrem e possam novamente honrar esse Ser tão amado e sagrado. Nossa Mãe. Aliás, as Nossas Mães. Porque temos várias a honrar. A que nos carregou no ventre. A que cuidou de nós (e que, muitas vezes, é a mesma). As que vieram antes de nós, a nossa linhagem ancestral feminina. Se qualquer uma delas tivesse desistido, não estaríamos aqui agora. Vamos honrar e agradecer a cada uma delas. E também aquela que nos abriga, nos dá o alimento e permite a nossa vida: A Grande Mãe, Mãe Terra, Gaia. Esse organismo vivo do qual fazemos parte, do qual somos um dos componentes e cujo funcionamento harmônico permite nossa existência. Portanto, dia das Mães também é dia de honrar a Natureza sob todas as suas formas e manifestações, agradecê-la e presenteá-la. Como? Como presentear a Mãe Natureza? Cuidando dela. “À Mãe, não se maltrata”, como ouvi do Mestre Boaventura de Souza Santos. Disse ele: “À Mãe... se cuida”. Cuidar da natureza é deixar que plantas e animais possam viver. É permitir que seus ciclos se completem, que os rios corram livres, limpos e abundantes de vida. É deixar que as aves migrem, que as plantas cresçam, que os bichos se espalhem por seus territórios, em todos os lugares. Não somente lá na Amazônia ou nos Parques destinados a esse fim. Mas aqui, na nossa frente, na nossa vida. Em regra, todos querem a conservação da natureza, mas desde que seja bem longe... lá no Parque Nacional, lá na Amazônia. Porque aqui, no nosso bairro, tudo é cimentado, as árvores são cortadas dando prioridades a fios e tubulações, os bichos são dizimados, plantas sistematicamente cortadas, arrancadas e queimadas. Aqui, a natureza só serve se for toda bem arrumadinha e limpinha. Totalmente controlada. Por isso, que tal presentearmos Mãe Terra pensando em como podemos deixar o lugar onde vivemos mais cheio de vida, de plantas e de bichos, de gente bonita, saudável e feliz? 


*Texto escrito em profunda gratidão à minha querida mãe, Maria Gil, que me carregou no ventre, cuidou de mim e cujo amor incondicional permitiu e continua permintindo que eu seja como sou e viva como vivo. Obrigada, mãe.   

É maio e Abaetetuba está em Flor para celebrar o Dia das Mães!




quarta-feira, 4 de maio de 2011

Melissas

A Páscoa de 2011 será inesquecível. Os balões foram flagrados da Vila Planalto, assim que saímos, eu, Nane e Adriana para a gravação do CD das Melissas, grupo vocal da Teia de Thea. Um prenúncio dos vôos que faríamos e faremos. Os dentes de leão foram descobertos por Natália no jardim do studio de gravação. "Dente de Leão" é uma das músicas do CD. Foram dias incríveis, dos quais surgirão, além de um CD, um clip com as imagens que eu tive o privilégio de testemunhar e filmar. Aguardem...



A Infrutescência
A flor


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Coisas

Coisas...coisas...coisas...
Compramos coisas e mais coisas...
Enchemos nossa vida de embalagens, papéis, plásticos, metais, vidros, pedras, madeiras, tintas, deixando um rastro de trecos, coisas, pedaços, lixo... montanhas de lixo e mais lixo que ficarão por milhares de anos boiando nas águas do nosso planeta, enterradas no nosso solo,  no fundo dos mares e oceanos... por todos os cantos... em todos os lugares... arrasando com a vida, com a diversidade de vida, com a beleza da diversidade da vida.
Em protesto, em luto, em desespero para encontrar uma forma de extravasar minha indignação... surgiu esse "incensário emergencial". Um símbolo da minha decisão de reduzir o quanto em puder a entrada dessas coisas todas na minha vida e na minha pegada sobre o solo da Mãe Terra.






segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Primeira Oficina de Jardinagem Agroflorestal em Abaetetuba...

... foi linda!
Magicamente, formou-se um grupo de pessoas tão especiais que a Oficina seguiu fluida e alegre do começo ao fim. Muitos e muitos aprendizados e encantamentos. Teoria e prática, movimento e reflexão, observação e ação. Eu me sentia plena de felicidade, inspiração e criatividade. 
Minha gratidão aqueles que fizeram essa experiência possível, os participantes. 
Minha gratidão aos meus amigos Sérgio e Fabiana, que vieram dar uma força. Graças à Fabi, pudemos compartilhar de um delicioso banquete agroflorestal cheio de petiscos com ingredientes do quintal.
Vejam nossa alegria nessa foto da Kenia Ribeiro que, junto com a foto, nos enviou a seguinte mensagem: 

"Amigos, segue uma recordação do nosso agradável final de semana.
Estou colocando em prática o conhecimento. O dedo já está esfolado de tanto picotar e podar.
Obrigada Helena! Um abraço fraternal a todos." 



Foi tão maravilhoso que já marquei da Segunda Oficina. Quem sabe o pessoal da lista de espera se anima!
Será nos dias 9 e 10 de julho. Divulguem... 


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lagartas

É tempo de lagartas em Abaetetuba!
Responsáveis e trabalhadeiras, elas podam as minhas plantas antes da seca, adubam a terra e enfeitam meu jardim. Como se isso não bastasse, depois ainda viram borboletas!
Algumas são totalmente inofensivas. Outras, são tão ornamentadas que nos perguntamos a quem querem impressionar com tantos microdetalhes artísticos. Um desbunde de diversidade de formas e cores! Elas me fazem lembrar de quando o Pequeno Príncipe fala dos espinhos das rosas e de sua utilidade: "Elles se croient terríbles avec leus épines!" (Elas se acham terríveis com seus espinhos). E de quando sua rosa o consola sobre o perigo das lagartas quando ele se for: "Il faut bien que je supporte deux ou trois chenilles se je veux connaître les papillons." (Eu tenho que aguentar duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas.).
Que rosa sábia!
Uma pequena amostra do que encontrei por aqui:

Vejam a delicadeza dos desenhos... quem querem impressionar com toda essa arte?
Essa adora folhas de maracujá. Deve ser bem calminha...

Lagarta ou chumaço de algodão?

Escandalosa!

Uma semana com a pele ardendo depois de encostar nessa. Ela sabe se defender.

Achei que eram folhas de cajueiro, mas eram folhas de um certo ipê do Cerrado!

Essa é enorme e adora as folhas do jasmim manga. 

Delicada, totalmente inofensiva

Assustadora, né? Igualmente inofensiva

Agora, uma que foi flagrada em outro lugar: Vila das Crianças. Durante uma oficina, uma das alunas veio me mostrar o que havia encontrado... ela sabe que eu amo lagartas!


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Agrotóxicos




A questão do uso de agrotóxicos foi uma das minhas primeiras inquietações quando entrei no curso de agronomia, em Belém do Pará, em 1987. Nunca pude compreender a lógica do uso de venenos na agricultura. Sempre achei absurdo e desnecessário. Sempre me pareceu uma aberração jogar na natureza um produto que que tem como objetivo matar a vida ali existente. Eu nunca poderia ter receitado um agrotóxico uma única vez a um agricultor. Nasci de um pai ecologista. Talvez tenha sido influência dele. Meu pai, um visionário, já falava, quando eu era criança, da memória da água e dos perigos do amianto. Foi na sua estante que encontrei o livro do Lúcio Flávio Pinto sobre o projeto Jari, assim como o livro do Sebastião Pinheiro chamado "Tucuruí, o agente laranja em uma república de bananas", livros que fizeram parte da minha formação intelectual e militante.

Foi assim que, na minha primeira semana na universidade, quando entrou em minha sala de aula um moço da Federação dos Estudantes do Brasil falando sobre agricultura alternativa, feita sem o uso de agrotóxicos. Encontrei minha tribo. Isso fazia todo sentido para mim. Fui para o histórico terceiro EBAA (Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa) e entrei no movimento contra o uso de agrotóxicos para nunca mais sair. Fiz estágio com controle biológico. Estudei o funcionamento das florestas tropicais. E, finalmente, encontrei a Agrofloresta.
Passaram-se 24 anos e o mesmo moço, da boca de quem pela primeira vez ouvi falar de agricultura alternativa, me escreve uma mensagem na qual me pergunta se eu acho mesmo que é possível produzir alimentos para toda a humanidade sem o uso de insumos químicos e se eu acredito que a agricultura familiar sozinha pode dar conta dessa produção. Ele havia esquecido. Como muito... milhares... milhões que andam por aí pelos shoppings, pelas avenidas, pelos escritórios... milhões que também se esqueceram.

Vamos encarar a verdade. Não se trata do que virá, já é o agricultor familiar que coloca comida na mesa dos brasileiros. Os dados são oficiais. A agricultura familiar é responsável por no mínimo 10% do PIB agrícola e por colocar até 60% do que está no prato do brasileiro, ocupando algo por volta de ¼ da área agrícola do país. Nós não comemos soja ou cana-de-açúcar. Eu não como carne. Em 1 hectare de floresta de produção (agrofloresta) é possível colher mais de 9 toneladas de pupunha. E de soja? Quantos quilos você colhe? Um terço disso? Haja insumo... E carne? Quanto você consegue por ano em 1 hectare? Vi números na internet que giram em torno de 40 quilogramas por hectare por ano em sistemas de alta produtividade!!! Pois bem, na floresta de alimentos, além das 9 toneladas de pupunha (que, diferentemente da soja, é alimento da melhor qualidade nutricional), você vai colher mais umas 30 toneladas de mandioca, feijão, milho, abacate, manga, cupuaçu, café, acerola, goiaba, graviola e todas as frutas e castanhas que quiser.... e tudo isso sem um único grama de agrotóxico, como muitos agricultores e agricultoras estão mostrando em vários cantos do Brasil.

Há duas questões que considero muito relevantes nesse debate.

A primeira diz respeito à dieta. Teremos uma agricultura natural e diversificada quando abrirmos mão de nossa dieta à base de carne, trigo, laticínios, açúcar e comida sintética. Não é preciso eliminá-los totalmente, mas esses produtos não podem representar até 90% da nossa dieta como atualmente acontece. É claro que as indústrias da soja, da carne, da importação de trigo, da cana-de-açúcar ficarão bastante bravas e farão de tudo para nos convencer a não fazer isso, o que estão conseguindo com tanto sucesso que até achamos natural! Afinal, a quem interessa uma agricultura diversificada, de base familiar, agroecológica e sustentável? Quem vai ganhar dinheiro no dia em que 90% da dieta do brasileiro comum for composta por mandioca, cará, batata-doce, verduras, frutas e legumes orgânicos?

Tem mais... sabe quantas espécies de seres vivos existem em 1 hectare de soja, cana-de-açúcar ou milho convencional? Uma única. Porque todas as demais sucumbiram sob chuvas de agrotóxicos. E sabe quantas espécies de seres vivos podem ser encontradas em um hectare de floresta de alimentos: incontáveis, milhões, inumeráveis... isso sem falar do pulular de vida, do cheiro da floresta, da beleza, das cores, da sombra, da água pura e abundante e do carbono todo... ali... estocado e tornado vida...

Por tudo isso, convido-o visitar o site da Campanha contra o Uso de Agrotóxicos e pela Vida:

Participe!



domingo, 3 de abril de 2011

Obsolescência*

Vejam o que encontrei sobre obsolescência no site (http://www.administradores.com.br): A obsolescência consiste em inutilizar um produto ou serviço pelo avanço de outros (...) Pode ser técnica ou funcional, planejada ou perceptiva (...) É considerada o motor do consumismo (...) Sem ela haveria um número extremamente menor de vendas de produtos ou serviços e, consequentemente, uma redução brusca do faturamento das organizações (...)  A obsolescência é fundamental para a economia. Victor Leboux, analista de vendas e conselheiro econômico do presidente americano Dwight Eisenhower, articulou a principal estratégia para reerguimento da economia depois da Segunda Guerra Mundial, dizendo que: “A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo o nosso modo de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, no consumo. Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas em um ritmo cada vez maior”.  São trechos do texto de Gustavo Lincoln Ricardo Pimenta. Gustavo termina o seu texto dizendo que a obsolescência é uma oportunidade para as indústrias e que deve ser feita com certos cuidados para que a empresa não denigra sua própria imagem!

E o outro lado da estória?
A obsolescência (planejada, técnica ou perceptiva) é uma irresponsabilidade humana que coloca os interesses do dinheiro acima de qualquer outra coisa, da ética com o planeta, da perspectiva de futuro para a própria humanidade, do respeito com o consumidor, da educação das futuras gerações e assim por diante.

Obsolescência planejada é um laptop ser construído para durar 3 anos. A partir desse tempo, começa a dar pau. As impressoras são planejadas para durar aproximadamente 2 anos. Depois disso, elas simplesmente resolvem não imprimir mais. Você leva a sua na autorizada e eles não consertam nada, simplesmente reprogramam-na para que ela dure mais algumas impressões e depois travar novamente. Essa brincadeira vai ficando tão cara, que o melhor acaba sendo jogá-la no lixo e comprar outra. Obsolescência planejada também é quando aquela peça que não funciona mais da máquina de lavar roupas custa quase o preço de uma máquina nova. Nem se acha mais quem troque leitor de CD porque não compensa. Temos que trocar o aparelho de som inteiro!

Obsolescência perceptiva é quando uma amiga entra na sua sala e acha cafonérrima aquela TV enorme, mesmo que ela funcione perfeitamente bem. “Você não tem TV de plasma???? Oh!.....”. Também é quando aquela calça lindíssima 6 meses atrás faz todo mundo te olhar de alto a baixo e ter pena, mesmo que seja apenas a terceira vez que você a use.

Obsolescência técnica é esse sucessivo lançamento de celulares ultra-super-mega modernos a cada dois meses fazendo com que você se sinta sempre e sempre defasada, mesmo que você nunca vá ter tempo de usar todos os cinco mil recursos que ele tem e vá somente ligar e receber ligações.

O marketing para fazer a obsolescência parecer normal é tão eficiente, que nos sentimos menores e culpados se não estamos sempre na crista da onda. Teremos sempre mil respostas na ponta da língua para explicar por que trocamos de celular, geladeira ou estante da sala mesmo que tudo funcionasse perfeitamente bem. Pior é quando não funcionam mais e temos que trocar tudo mesmo quando sabemos do impacto absurdo causado pela troca da casa inteira a cada três anos por cada consumidor do planeta  (geladeira e todos os eletrodomésticos, televisão, computador e todos os eletrônicos... isso sem falar do guarda-roupas, que tem que ser renovado a cada nova estação).

Quando assistimos a filmes como “Home”, nos chocamos diante da imagem daqueles tratores gigantescos, do tamanho de um prédio, esburacando o mundo às toneladas por segundo e formando crateras do tamanho de cidades inteiras para extrair do seio da Mãe Terra a bauxita, o cobre, o níquel e tudo o mais. Diante dessa imagem, temos pena e não a associamos à TV de plasma de 40 polegadas na qual o estamos assistindo. Também deletamos da nossa mente, no momento exato em que estamos no caixa pagando, felizes da vida, a nosso novíssimo micro-ondas que vai substituir aquela velharia que não combina com nossa nova cozinha, a imagem das montanhas de lixo que se formam em lugares longe dos nossos olhos e narizes para onde o nosso velho micro-ondas vai parar.

O que fazer para não nos tornarmos reféns e cúmplices desse sistema perverso? Talvez mudar o foco da nossa atenção do Ter para o Ser. Talvez cuidarmos das nossas coisinhas com tanto amor e carinho que elas durem muito mais do que foram planejadas para durar (lembram de Blade Runner?). Talvez nos conectarmos mais intensamente com a natureza, com a Mãe Terra e lembrarmos que recursos dela são arrancados a cada nova compra que fazemos e que lixo se acumula nas suas artérias cada vez que jogamos algo fora. Que a seja dada sabedoria à humanidade e justiça para todos os Seres da Família Planetária! 


* Texto originalmente publicado no "Deusa Viva", jornal mensal da Teia de Thea